Um excerto do livro "Jesus, esse grande desconhecido" de Juan Arias.
"... Mas, descartada a hipótese de que Jesus e os seus fizessem parte da comunidade dos essênios de Qumran, por mais que algumas de suas doutrinas possam ter influenciado o cristianismo primitivo, o que parece mais provável é que eles integravam o grupo dos fariseus, cuja doutrina era mais próxima àquela que Jesus pregava. Não podemos esquecer que foi um famoso fariseu de seu tempo, José de Arimatéia, quem cedeu seu túmulo para que Jesus fosse enterrado depois da crucificação. E foram alguns grupos de fariseus que foram avisar Jesus, para que ele fugisse, ao saberem que Herodes estava à sua procura para matá-lo.
Pois bem, uma pergunta se impõe de imediato: como é possível que Jesus fosse um fariseu se os quatro evangelhos apresentam os seguidores dessa seita como seus grandes inimigos e perseguidores? A explicação que hoje se dá a essa pergunta é muito simples. Parece que, quando os evangelhos foram escritos - o que coincide com o momento em que as primeiras comunidades cristãs começam a se afastar de suas raizes judaicas para entrar em contato com os pagãos e gentios, entre eles os romanos -, os fariseus eram o grupo dominante do judaísmo, não vendo com bons olhosa abertura do judeu-cristianismo para uma religião universalista, perseguiram duramente os judeus-cristãos, impedindo-os, por exemplo, de continuar entrando nas sinagogas, como haviam feito até então os judeus circuncisos convertidos a Jesus.
Nessas circunstâncias, os evangelistas atribuiram aos fariseus do tempo de Jesus - que eram muito diferentes -, coisas que correspondiam ao que eles estavam vivendo. Assim, todos os ataques sofridos por Jesus, partissem de quem quer que fosse, eram atribuidos aos fariseus. Todas as disputas e os insultos a Jesus foram atribuidos a eles, quando o normal seria que os maiores adversários de Jesus dentro do judaismo fossem, não os fariseus, que eram uma seita liberal - acreditando até na ressurreição dos corpos - mas os saduceus, que representavam a oficialidade do Templo.
Sem dúvida, Jesus deve ter tido seus conflitos com os fariseus, sobretudo com os mais legalistas, mais atentos à letra que ao espírito da Lei, mas não ao ponto de eles serem os grandes inimigos do Mestre. Tanto assim que não se fala no envolvimento de nenhum fariseu durante o processo que levaria Jesus à condenação e à morte na cruz. Na verdade, muitos tinham sido tão amigos dele que até o convidavam para comer em suas casas.
A postura dos evangelistas contra os fariseus foi tão dura que "fariseu" virou sinônimo de "hipócrita", palavra que puseram na boca de Jesus contra os fariseus. Agora uma coisa parece certa: se Jesus não pertencesse de algum modo ao grupo de fariseus, estes não teriam perdido tempo discutindo com ele; simplesmente o teriam desprezado ou ignorado, como mais um louco que se fazia passar pelo Messias.
Hoje a verdade é muito diferente. Poucos sabem, por exemplo, que boa parte das afirmações atribuidas exclusivamente a Jesus já pertenciam à doutrina liberal dos fariseus. Por exemplo, a famosa frase de Jesus, "o sabado foi criado para o homem e não o homem para o sábado", usada pelos fariseus para contrapor-se aos grupos mais tradicionais, que faziam da lei sabática algo estritamente formal. Igualmente, a regra de ouro, "Não façais aos outroso que não quiserdes que vos façam" vinha da doutrina farisaica, ao mesmo tempo em que os fariseus recusavam a prática do "olho por olho, dente por dente", também questionada por Jesus ao pregar, ao contrário, o perdão e o amor aos inimigos.
Acontece que os fariseus, alêm das normas escritas da Lei, defendiam uma tradição oral não-codificada, em que constava, por exemplo, que a circuncisão realizada no oitavo dia não violava o sábado. Mesmo as questões de maior controvérsia entre Jesus e os fariseus eram tópicos doutrinários já em discussão entre os vários grupos de fariseus, que tinham diferentes interpretações dasleis e da tradição judaicas. Tais discussões de Jesus com os diferentes grupos de fariseus vêm provar que, mesmo que não pertencesse estritamente à seita, ele, no mínimo a conhecia bem a fundo e adotara muitas de suas doutrinas."
Sábado, Dezembro 24, 2005
Jesus era simpatizante da seita dos fariseus
Sábado, Dezembro 17, 2005
Reformadores do Espiritismo
Os Reformadores do Espiritismo estão por ai, disseminados em inúmeras obras que se auto-intitulam como sendo espíritas mas que vão contradizendo de maneira paulatina os princípios básicos da Doutrina Espirita. Reformam sem demonstrar que estão reformando, adulteram sem demonstrar que estão adulterando. Como conseguem fazer isso? De uma maneira simples que poderia ser evitada com o estudo e valorização das orientações que encontramos na codificação quando nos orienta sobre como identificamos a natureza de um espírito, quais os indícios que nos permitem saber se um espírito age com respeito, seriedade e compromisso ou não, e definitivamente algumas caracteristicas negativas como "profecias" (dentre outras) são amplamente defendidas e utilizadas pelos "reformadores do espiritismo", claro que tudo isso embalado em doces palavras, repetindo sobretudo as palavras-chave Jesus e Amor à profusão. E já dizia um discípulo de que não bastaria dizer "Jesus, Jesus" para ser de fato um seguidor...
Pois bem, embalados nas doces palavras não se dão conta de que vão lentamente contrariando a codificação que alegam seguir, chegam até mesmo a exortar Kardec para já em seguida contradize-lo, exaltam também a Doutrina para imediatamente jogarem-na para escanteio oferecendo em troca algo que acreditam ser melhor, mas que é tão bom que necessita do nome "espiritismo" para ser aceito. Talvez se fosse bom de verdade seria aceito pelo que é e não pelo que procura desfigurar, destruir.
Enfim, ai estão os "reformadores do espiritismo", e ai dos pobres "obsediados" que ousarem relembrar princípios doutrinários, deverão ser taxados disso: retrógrados, incapacitados para o amor, laicos, obsediados, presunçosos, dentre outras adjetivações negativas possíveis de se aplicar. São culpados e adjetivados por se negarem a seguir com a "manada", a seguirem os modismos.
Talvez o mais caracteristico seja notar que a Doutrina Espirita se distingue e se distancia de todas as demais filosofias e expressões de religiosidade por tomar uma base de profunda humildade; é a unica que não apregoa "verdades imutáveis", pelo contrário, conclama seus seguidores a exercerem o senso crítico e avaliarem detidamente tudo aquilo produzido sob a chancela de "espírita", não teme se colocar diante da ciência e até mesmo propagar que diante de uma constatação de que algum princípio se encontra equivocado, é responsabilidade (notem o peso da palavra responsabilidade) de que seus adeptos abandonem tal princípio e adotem a correção trazida pela ciência. Não é uma obra de um único homem, seja o codificador, seja quem a ditou, pelo contrário, é uma obra produzida coletivamente que traz um conceito expresso apenas posteriormente pela ciência dos "coletivos inteligentes", dentre outros que poderiam ser associados a essas práticas adotadas desde o princípio pela Doutrina. E exatamente nessa linha em que se fundamenta, lança também as diretivas para que as produções futuras não escapem desse modelo enveredando pelo personalismo. Mas o que buscam os "reformadores do espiritismo"? Exatamente subverter esse princípio trocando a produção coletiva pela imposição de um único ou de poucos. E conceitos estranhos como "infalibilidade mediunica" ou "infalibilidade do espírito embora o médium possa falhar" tomam o lugar das orientações doutrinárias que visam combater essa chaga do personalismo.
É assim que vemos nascer, dentre outros, Roustaing, Pietro Ubaldi, Osvaldo Polidoro, etc, etc, etc, que de um jeito ou de outro jogam a codificação a escanteio, alegando que se encontra ultrapassada e propõem que em seu lugar se adote aquilo que produziram individualmente. É exatamente o corolário oposto daquilo que a doutrina nos exorta. E muitos cedem pelas palavras doces com que se revestem tais distorções da Doutrina.
Fanáticos pululam e se exasperam ao menor ruido propondo que incorreções sejam retiradas (conforme orienta a Doutrina) e que em seu lugar a correção seja disseminada, alegam que tal "heresia" seria adulterar a Doutrina, oras, a negação de se seguir o preceito doutrinário que indica que isso deve ser feito é o que? Não seria a negação de se seguir os princípios doutrinários a primeira e mais básica de todas as "heresias" que adulteram a Doutrina? Pois é nesse interminável duelo entre seguir ou não seguir as orientações doutrinárias que surgem argumentos completamente distanciados dos fundamentos doutrinários, embasados unicamente em opiniões pessoais, via de regra movidos apenas por emoções, que acabam obstruindo que a humanidade possa conhecer a Doutrina espirita em sua totalidade, em sua tríplice fundamentação (ciência, filosofia e moral - conforme o original em Francês), e mais do que impedir que se conheça, obstruem também que se vivencie a doutrina em sua totalidade. Estranhamente adotam um único viés mas não se ruborizam de recorrer a citação de que a Doutrina é tambem ciência e filosofia quando acuados diante de argumentos contrários a seus pontos de vista, recorrem justamente a aquilo que obstruem a livre expressão e vivencia, com a argumentação de que constituem um viés desprovido de caridade, amor ao próximo, etc.
Assumem uma postura de que a Doutrina Espírita é uma religião, embora encontremos em seus alicerces que ela somente pode ser classificada como tal no aspecto filosófico. Mais do que isso, alegam que estão resgatando os principios dessa religião que teria sido adulterada com o passar do tempo por organizações humanas; estranhamente todas suas comunicações, todo seu embasamento reza pela cartilha da instituição que seria a principal culpada pelas deturpações. Mas uma verdade subsiste nessa argumentação; pois que procedem da mesma maneira que no passado procederam, com a distorção dos ensinos de alguem e com a transformação desses ensinos numa religião, algo que nunca foi proposto pelo "fundador", mas a ele imposto pelos "seguidores". Os frutos vemos sendo colhidos, já se busca diante das leis o reconhecimento da figura de "autoridade religiosa do espiritismo", título a ser conferido a médiuns ou dirigentes espíritas para que assumam um papel que é destituido de qualquer fundamento doutrinário, pelo contrário, exposto como incorreto perante a Doutrina, aceitável para religiões tradicionais.
Sexta-feira, Dezembro 16, 2005
A intensidade de uma vida
Em homenagem a Eduardo Carvalho Monteiro
Autoria de Wilson Garcia
Dezembro, 15, 2005. Eduardo partiu hoje, pela manhã. Pela Júlia Nezu e outros amigos recebi a notícia. Estive com ele no Hospital Alvorada dia 29 de novembro, em companhia do amigo comum Maurício Ribeiro. Estava esperançoso de retomar as atividades normais, mas sabia-se em grandes dificuldades. As pernas sem movimento, a voz baixa e marcas de incisões nos braços e no corpo. Reclamou de não poder mudar de posição no leito. Fez-nos, emocionado, confidências particulares, confidências que a nós faziam sentido e tinham imenso valor. Por cerca de uma hora, conversamos amenidades e recordamos fatos passados. Enfim, o deixamos. Era a despedida de quem estava de retorno aos campos floridos de um espaço sideral deixado anos atrás, onde a vida tem outros sentidos mais e, certamente, novas e fortes emoções.
Este momento sereno me conduz a relembrar a trajetória que, juntos, fizemos. Ficaria eu bastante chateado se não tivesse tido a feliz idéia de visitar o Eduardo em seu leito hospitalar, poucos dias antes de sua partida. Era preciso que isso ocorresse. Por muitas razões, entre as quais a de que ele se fez presente em grande parte da minha vida, especialmente em momentos cruciais. Recordar, portanto, a nossa trajetória significa prestar um preito de gratidão a quem realizou um grande e despretencioso trabalho pela causa do Espiritismo, na qual acreditava com todas as forças.
O início de tudo
Conheci Eduardo em 1978. Por alguma indicação da qual não me recordo, ele nos procurou na Editora Correio Fraterno do ABC para oferecer o livro que havia concluído sobre a vida de Jésus Gonçalves. A editora, como tal, era nova. Havia lançado então apenas dois títulos: “O Besouro Casca-Dura e outros contos”, de Iracema Sapucaia, e “Eurípedes Barsanulfo, o Apóstolo do Espiritismo”, de Jorge Rizzini.
Provavelmente, Eduardo se motivou a nos procurar em vista deste último livro, pois, curiosamente, o seu copiava o título daquele: “Jésus Gonçalves, o Apóstolo do Espiritismo”. Ao entregar os originais, disse: “Faça uma revisão e o prefácio”.
Estávamos às vésperas do Carnaval. Coloquei os originais na mala e demandei com a família para minha cidade natal na Zona da Mata mineira. Ali, pus-me a ler com atenção o livro e procedi a diversas anotações, sugestões de mudanças e alguns cortes. Eduardo, então, já se mostrava um arguto pesquisador, mas carecia de melhores condições no preparo do texto e na organização das diversas partes do livro. Entre as minhas sugestões estava a de mudar o título para “A extraordinária vida de Jésus Gonçalves”, sob o argumento de que havia uma diferença fundamental entre a vida de um apóstolo e a de uma grande figura, na qual mais bem se encaixava o biografado. Eduardo resistiu um pouco mas, enfim, aceitou. Creio que cedeu por conta de desejar ver logo publicado aquele que seria o primeiro livro de sua copiosa produção literária.
O adjetivo extraordinário contido no título do livro logo se aplicou, também, à sua aceitação pelo público: em menos de três meses se esgotaram os seis mil exemplares da edição, edição logo sucedida por outras e outras mais, tornando-se, assim, um verdadeiro sucesso de venda.
Iniciava ali, também, uma longa convivência entre nós, convivência que se estenderia à vida privada de ambos, bem como nos levaria a produzir alguns livros em regime de co-autoria. A mim coube, também, publicar vários outros livros do Eduardo e alguns com o meu prefácio.
Passei a dividir com o Eduardo o cotidiano, conheci seus dramas familiares, a trajetória obsessiva pela qual passou, sua chegada ainda jovem a Uberaba pelas mãos de uma grande amiga, a relação com Chico Xavier e sua adesão incondicional ao Espiritismo. Sabia-se mudado profundamente após essa dura experiência que a obsessão lhe impusera.
Torcedor quase fanático do São Paulo Futebol Clube, tinha cadeira cativa no Morumbi e chegou a ser chefe de torcida organizada. Ao assumir o Espiritismo, não deixou de acompanhar o clube do seu coração nem de torcer freneticamente por ele, mas foi reduzindo sua presença nos estádios e substituindo o tempo ali gasto por atividades mais úteis ao ser humano e à sociedade.
Algum tempo depois do lançamento do seu livro sobre Jésus Gonçalves, Eduardo organizou um outro livro, com páginas psicografadas pelo médium Eurícledes Formiga, poeta premiado, de autoria do conhecido espírita Rubens Romanelli. Eduardo se afeiçoou a Formiga e tornou-se um de seus melhores amigos, acompanhado-o em suas atividades mediúnicas até o retorno de Formiga ao mundo invisível. O livro tem por título “Construções do Espírito”.
Psicólogo por formação acadêmica, mas sem exercer a profissão, Eduardo esteve conosco em 1982, no VIII Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, na capital baiana, integrando-se desde então na comissão que assumiu naquele evento máximo do Espiritismo de então a responsabilidade de realizar em São Paulo o próximo congresso. Ali também tivemos contato pela vez primeira com o médium Edson Queiroz, com quem o famoso Espírito do médico alemão Doutor Fritz realizava cirurgias mediúnicas.
Muito bem impressionados com a destreza mediúnica do médium, combinamos levá-lo à capital paulista, para atendimento público. Como, na ocasião, eu dirigia, também, o jornal “O Semeador”, da Federação de São Paulo, obtive com o então presidente, João Batista Laurito, o necessário apoio material e institucional para Edson em São Paulo. Vale registrar que foi esta a primeira (e última) vez que aquela instituição promoveu em suas instalações um evento de tal natureza, rompendo por instantes com os limites impostos pelo preconceito em relação a fenômenos mediúnicos dessa natureza. Mas não saiu impune o presidente Laurito. E nós também. O registro dessa desafiadora ação está no livro de minha autoria de título “Sinal de vida na imprensa espírita”, Editora EME.
Eduardo participou de tudo isso, lado a lado comigo. A comissão encarregada de organizar em São Paulo o próximo congresso de jornalistas e escritores teve nele o principal esteio, seja para enfrentar o desafio de um cometimento de tal envergadura, seja nos conflitos que se estabeleceram por conta de uma oposição política cujo interesse estava centrado no insucesso do congresso. Trabalhou ele arduamente em todas as etapas, da organização do temário à definição dos oradores, da escolha do local aos acertos dos detalhes mais simples. A ele se deve uma das maiores parcelas do sucesso do XIX congresso realizado em 1986.
Logo nos primeiros tempos de organização do evento, propus ao Eduardo o desafio de escrevermos um livro sobre o patrono, Cairbar Schutel, com a finalidade de lançá-lo na abertura do congresso. Eduardo arregaçou mangas também aí e, juntos, passamos a fazer pesquisas, viajando diversas vezes a Matão, onde Cairbar realizou seu grandioso trabalho, bem assim a diversos outros lugares para entrevistas e levantamento de informações necessárias.
Valem alguns registros curiosos e interessantes. A franqueza com que os faço será, não tenho dúvida, apreciada pelo Eduardo. Se não o for, porém, será apenas mais um dos conflitos que vivenciamos em nossa relação de grande amizade e sentimentos recíprocos de afeto, conflitos que, se em alguns momentos nos distanciaram um do outro, não foram jamais suficientes para destruir uma amizade de longo tempo e muitas vidas.
Tinha eu a intenção de participar com o Eduardo das pesquisas e trabalhar no texto final do livro. Eduardo não comungava da idéia. Antes, havia guardado desde 1978 um certo ressentimento pelo fato de haver eu interferido em seu livro sobre o Jésus Gonçalves, em especial pelas supressões sugeridas e os acertos estéticos do texto.
Sem nada comentar a respeito no curso das pesquisas, ao aproximar o fim do prazo para entregarmos à Editora o livro, veio até mim com uma pasta e disse: “Aqui está a minha parte. Leia, mas vou logo avisando, eu não aceito nenhuma mudança”. Surpreso, também bati o pé. Silencio por silencio, eu ganho, pois sou mineiro. Não li a parte do Eduardo, apenas juntei o que havia escrito e entreguei tudo ao Aparecido Belvedere, da Editora O Clarim, para a edição do livro.
Um outro fato interessante. Eduardo e eu, na companhia do amigo comum e inesquecível companheiro Hélio Rossi, que também integrava a comissão do congresso, estávamos na sede da Editora O Clarim discutindo com os seus diretores a respeito de detalhes do livro que estava na fase de pesquisa. Havia algumas informações sobre o biografado que Eduardo, com minha aquiescência, julgava ser necessário registrar no livro. Éramos de parecer que uma biografia não deveria omitir detalhes, mesmo que algum deles não fosse totalmente positivo para o biografado. Era o caso. Os diretores não aceitaram, argumentando que não havia prova definitiva sobre o acontecimento em análise. O conflito se estabeleceu e foi por diversas vezes discutido. No final, prevaleceu o argumento da Editora.
Fica do fato uma revelação sobre a personalidade do Eduardo, sempre disposto a defender a verdade, independentemente das circunstâncias e contextos.
Enfim, em abril de 1986, o livro “Cairbar Schutel, o bandeirante do Espiritismo” foi lançado na sessão de abertura do XIX Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo. Deste congresso resultou ainda um outro livro, cuja autoria assumi, publicado em 2004 com apoio da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (Abrade) e cujo título é “Espiritismo Cultural: Artes, Literatura e Teatro”.
Outros trabalhos
A experiência com a obra sobre a vida de Cairbar Schutel me levou a propor ao Eduardo outro desafio: registrar em livro a vida de uma figura que me era muito cara: Pedro de Camargo, mais conhecido por Vinicius. Eduardo aceitou. Juntos, demos início a uma série de viagens, entrevistas, localização de documentos, contatos com familiares e tudo o mais que uma atividade dessas exige.
Alguns percalços no caminho levaram ao Eduardo um certo desânimo, especialmente porque alguns parentes sonegaram informações e julgaram-nos sem a devida competência para o trabalho. De forma que as pesquisas foram paralisadas até que um dia, alguns anos mais tarde, propus ao Eduardo reunir tudo o que já havíamos levantado a respeito de Vinicius para verificar a possibilidade de concluir a biografia. Entregou-me ele o material em seu poder e deu-me inteira liberdade para fazer o uso que desejasse, uma vez que ele não teria tempo para prosseguir em vista de outros compromissos assumidos. Conclui o trabalho e assim surgiu mais um livro em co-autoria: “Vinicius – educador de almas”, lançado pelo selo EME/Eldorado.
Em maio de 1987, Eduardo fez-me uma proposta inusitada: convidou-me para ser maçom. Inusitada e surpreendente. Nunca pensara em me tornar maçom e sequer sabia que ele havia ingressado na Ordem. Eduardo insistiu, falou-me por alto do assunto, instigou minha curiosidade e saiu do meu escritório com o meu sim. Deixou-me um longo questionário de quatro páginas para ser preenchido e veio buscar pouco depois. Em seguida, veio ter comigo um senhor de nome Aluisio José de Freitas, proprietário da Sigbol, uma escola de corte e costura localizada na Vila Mariana. Pertencia ao quadro da Loja Maçônica Amphora Lucis e queria fazer uma entrevista comigo em continuidade ao questionário que o Eduardo havia entregado na Loja.
Confessou ter desejado conhecer-me em razões de algumas coincidências matemáticas que ele encontrou nas informações do questionário. De fato, eram no mínimo intrigantes as coincidências. Aluisio havia nascido no mesmo dia que eu, alguns anos antes. Sua esposa havia nascido no mesmo dia que minha esposa. Um de seus filhos nascera no mesmo dia do meu filho mais velho. E outras coincidências semelhantes havia.
Em pouco tempo, pouquíssimo tempo para os padrões de exigências maçônicas, tive o meu processo aprovado e em dezembro daquele mesmo ano fui iniciado na Ordem Maçônica. Mais tarde vim a saber que Eduardo e Aluisio haviam apressado o meu ingresso porque queriam a minha experiência profissional no quadro de colaboradores da revista “A Verdade”, da Grande Loja Maçônica de São Paulo. Aluisio era o diretor geral da revista e Eduardo se integrara no corpo de colaboradores com intensa atuação. Eles dois, praticamente, respondiam pela revista.
Foi assim que, mais uma vez, trilhei caminhos ao lado do Eduardo. Foi uma experiência que durou 14 anos e terminou em dezembro de 2001. Com o Eduardo e o novo amigo, Aluisio, mais o apoio do Grão-Mestre daquela potência maçônica, elaboramos um projeto de desenvolvimento da revista com o objetivo de torná-la uma das melhores do setor. Eduardo, com sua veia inata de pesquisador, produzia ótimos estudos. De minha parte, introduzi modificações técnicas necessárias e fui assumindo cada vez mais participação na revista. Aluisio, na condição de diretor, realizava um trabalho intenso de condução e manutenção das linhas do veículo.
Alguns anos depois, Aluisio viu-se na contingência de deixar a direção da revista. Instado pelo então Grão-Mestre a assumir sua direção, sugeri fosse o convite feito ao Eduardo, reconhecendo nele maior competência para o metier. Eduardo aceitou, muito feliz, porém ficou no cargo apenas alguns meses. Pediu demissão tão-logo se viu confrontado pelo então diretor de Relações Internas da Grande Loja, a quem competia responder pela revista perante a administração, em vista de uma matéria sobre economia a ser publicada.
O episódio deixou suas marcas. Eduardo entendeu que eu deveria segui-lo. Divergimos sobre os motivos de sua demissão e sobre o próprio ato. Eduardo jamais voltou a colaborar com a revista e aliou-se, desde aquela época, à oposição política na Grande Loja.
Eduardo era dado a extremos. Passamos horas inúmeras conversando sobre estes fatos, mas ele entendia que quando tomava uma decisão, era definitiva.
Um pouco antes desses acontecimentos, ou seja, em 1994, havia eu concluído um novo livro com material sobre o período de mais de uma década de participação na equipe do Correio Fraterno do ABC, quando ele me informou que estava concluindo um texto histórico sobre os 70 anos da imprensa espírita no estado de São Paulo. Material pertinente ao livro. Foi assim que publicamos, em 1994, o nosso terceiro livro de parceria, intitulado “Sinal de vida na imprensa espírita”.
Os conflitos fazem parte do dia-a-dia humano. A boa ética nos ensina a conviver com os conflitos para superá-los através do entendimento. Nem sempre, porém, conseguimos nos equilibrar entre os extremos que os conflitos oferecem. Na Loja Maçônica Amphora Lucis, continuamos lado a lado, Eduardo e eu. Até o final de 2001. Entrei pelas mãos dele e pelas mesmas mãos saí, quando o conflito político-institucinal atingiu um clímax insuperável.
Nosso caminhos, porém, nos permitiram construir tantas e tantas obras juntos que um afastamento definitivo era humanamente impossível. Vivêramos intensamente emoções tão marcantes que jamais poderíamos imaginar, sequer, uma vida distante.
Aqui é preciso fazer uma digressão.
Eduardo sofrera intensamente com a situação familiar. Em certa altura da vida, tornou-se o amparo de sua mãe, padecendo com seus padecimentos e velando por sua constituição física, moral e espiritual. Os desencontros familiares marcaram-na profundamente e atingiram o Eduardo. O conhecimento espírita tornou-se a alavanca moral de sua atuação no lar, junto ao coração materno. Em grande medida, foi ele, também, uma presença marcante de um verdadeiro pai na educação de seu sobrinho, quando sua querida irmã viveu dias de desencontros. A desencarnação da mãe atingiu-o de modo muito particular, mas constitui-se no termo de um sofrimento que muito o angustiava. Ao conduzir seu corpo ao túmulo, ele se despediu de alguém por cuja felicidade lutou bravamente, enquanto pôde.
Compartilhei com ele muitos desses momentos. Em contrapartida, ele vivenciou comigo na posição de amigo incondicional diversos revezes. Em 1991, em plena madrugada de uma noite de novembro, fui internado às pressas, com um princípio de infarto. Eduardo, naquele mesmo dia, estava entrando em um período de merecidas férias. Ao tomar conhecimento do que me havia acontecido, correu ao Pronto Socorro onde eu havia sido recolhido e assumiu a condução das providências, dando um apoio incalculável à minha família. Providenciou UTI, ambulância para locomoção, assumiu despesas financeiras, procedeu ao meu encaminhamento à Beneficência Portuguesa para os exames de cateterismo e providenciou a internação no mesmo hospital quando os exames indicaram a necessidade de intervenção cirúrgica. Desentendeu-se, inclusive, com a equipe médica encarregada do meu caso quando esta apresentou a cobrança de um pagamento “extra-contábil”. Mais tarde, ainda revoltado, me contou o fato. Todo esse processo, do instante da internação no Pronto Socorro até a alta hospitalar após a cirurgia demandou exatos 30 dias. Estas foram as férias do Eduardo.
Como afirmei anteriormente, Eduardo era de extremos.
Em todas as obras a que se ligava, assumia integralmente a responsabilidade e se lançava ao trabalho. Um grande amigo me ensinou, um dia, que quem trabalha tem o direito de falar. Eduardo, da mesma forma que trabalhava intensamente por aquilo em que acreditava, exigia dos seus companheiros uma doação igual. E total lealdade. Tinha ele uma visão muito particular de lealdade e isso o fez sofrer muito. Queria uma lealdade incondicional, igual à que daria, na justiça e na injustiça. Mas cada indivíduo tem sua medida e suas noções sobre lealdade. Algo assim como o bom-senso de Descartes.
Se Eduardo dissesse “estou com você”, podia-se acreditar cegamente nele. Em tudo era ele intenso e total. Quando realizava uma pesquisa qualquer, dedicava-se ao máximo e não descansava jamais, porque com o Eduardo as pesquisas jamais têm fim. O seu primeiro livro – “A extraordinária vida de Jésus Gonçalves” – deu frutos pela vida toda. Uma vez que ele puxasse o primeiro fio da meada, não o largaria em tempo algum. É possível que se perdesse em algum labirinto, mas então o fio preso em suas mãos o trazia de volta. Quem quer que vá aos seus arquivos de milhares de livros e documentos, por certo encontrará material inédito não apenas sobre Jésus Gonçalves, mas sobre qualquer assunto de qualquer de seus livros publicados.
Foi com a mesma dedicação que ele integrou-se no trabalho junto aos hansenianos e viajou pelo Brasil inteiro por conta das lutas para mudar o paradigma dessa doença que tantas e tantas vidas segregou da sociedade. A causa hanseniana era uma entre tantas a que se filiou, um exemplo claro do modus operandi do Eduardo. Ela gerou o livro sobre Jésus Gonçalves, pontificou a assistência material permanente no Sanatório Pirapitingüi do interior de São Paulo, conduziu aos desafios políticos da mudança na legislação, enfim, estendeu-se para além, muito além dos limites visíveis.
De igual modo e com a mesma energia, Eduardo assumiu outros muitos compromissos que lhe pareciam justos e honestos. Em 1991, reuniu um grupo de amigos, eu entre eles, para anunciar que havia recebido a oferta de doação de uma chácara no Bairro de Eldorado, na divisa da capital paulista com Diadema. Era uma chácara muito bonita, com algumas construções em alvenaria e cerca de 10 mil metros quadrados de área total. Para fazer a doação, o proprietário exigiu que fosse feito um trabalho social no local.
Decidimos pela fundação da Sociedade Espírita Anália Franco, numa homenagem à grande batalhadora da educação. Eduardo assumiu a presidência, fiquei eu com a vice e a obrigação de constituir uma editora para gerar receitas à obra. A sociedade assumiu o terreno, implantou rapidamente algumas atividades e preparou-se para receber a doação. Esta, porém, não se concretizou, então. O proprietário passou a fazer novas exigências, do que decorreram inúmeros conflitos. A Sociedade Anália Franco, porém, prosseguiu, ocupando apenas parte do terreno, tendo em vista a solidificação de suas atividades espíritas e assistenciais. A editora projetada para sustentação financeira da obra saiu do papel e editou vários livros. O primeiro deles um trabalho de pesquisa do próprio Eduardo, intitulado “Anália Franco, a grande dama da educação brasileira”.
Alguns anos mais tarde, a chácara foi doada à Grande Loja Maçônica de São Paulo, cabendo à Sociedade Anália Franco uma pequena parte do terreno, onde ainda se encontra.
Turrão e amigo, amoroso e ácido. Eduardo era capaz de fazer os maiores elogios a você e, da mesma maneira, condenar face-a-face as atitudes das quais discordasse. Certa ocasião, viajamos em seu carro esportivo, um Puma que ele mantinha com certo desleixo, para compromissos no interior do estado de São Paulo. Araraquara, a primeira parada. Em instituição espírita local, ele fez uma comovida palestra sobre uma personalidade do movimento, que estava pesquisando. Quando retomamos a estrada para prosseguir a viagem, perguntou-me: o que você achou da palestra. Disse-lhe que ele não precisava imitar o Divaldo Franco, mas deveria assumir a própria personalidade, pois se daria melhor. Ficou furioso comigo. Mas entendeu. Na cidade seguinte, não mais utilizou aquele estilo eloqüente consagrado pelo orador baiano.
Quando fui visitar o Eduardo no seu leito hospitalar na companhia do Maurício Ribeiro, entendi que ele estava indo embora. Dormia ligeiramente quando chegamos, mas logo abriu os olhos e um leve sorriso apareceu em seus lábios. Começou a contar sua experiência de quase-morte, as visões que havia tido, o mundo novo que se lhe descortinava. O corpo imobilizado impedia-lhe de demonstrar a intensidade natural ao seu ser, mas era visível como aquilo lhe gratificava.
Em certo momento, espontaneamente, revelou-nos algo muito íntimo. Disse Eduardo:
- Sabe, eu aprendi muito nestes dias. Aprendi que a gente guarda muitas mágoas, elas se acumulam e acabam um dia fazendo um mal imenso.Olhando-nos fixamente, demonstrando relativa tranqüilidade, prosseguiu:
- Eu guardei muitas mágoas e não percebi isso. Elas foram me corroendo por dentro, me conduzindo a atitudes injustas. Eu estou mudando. Quando eu retomar a vida normal, vou rever minha agenda. Não vou fazer mais as coisas da maneira como vinha fazendo. Toda essa pressa, toda essa loucura não vale a pena. As coisas não podem ser dessa forma.A vida normal para Eduardo, ali prostrado, era a dos milhares de dezenas de anotações, o convívio com os amigos e as pesquisas quase intermináveis. A intensidade é que mudaria.
Eduardo mudou. Mudou-se. Foi reencontrar-se com as centenas de almas por quem lutou e a mãezinha saudosa. Os amigos lhe desejam breve retorno.