terça-feira, outubro 19, 2004

Sobre o ciúme entre os médiuns

Revista Espírita - Abril de 1861

(Envio do Sr. Ky..., correspondente da Sociedade em Carlsruhe.)

O homem vão, de si mesmo e de sua própria inteligência, é tão desprezível quanto lamentável. Ele expulsa a verdade de diante de si, para substituí-la por seus argumentos e suas convicções pessoais, que crê infalíveis e irrevogáveis, porque lhe pertencem. O homem vão é sempre egoísta, e o egoísmo é o flagelo da Humanidade; mas desprezando o resto do mundo, ele não mostra senão muito a sua pequenez; repelindo as verdades que para ele são novas, mostra também o espaço limitado de sua própria inteligência pervertida pela sua obstinação, que aumenta ainda a sua vaidade e o seu egoísmo.

Infeliz do homem que se deixa dominar por esses dois inimigos de si mesmo! Quando este despertar neste estado onde a verdade e a luz fun-dir-se-ão sobre ele de todas as partes, então não verá em si senão um ser miserável que está loucamente exaltado acima da Humanidade, durante a sua vida terrestre, e que estará bem abaixo de certos seres mais modestos e mais simples aos quais pensava se impor neste mundo.

Sede humildes de coração, vós a quem Deus fez parte de seus dons espirituais. Não atribuais nenhum mérito a vós mesmos, não mais do que se atribui a obra, não às ferramentas, mas ao obreiro. Lembrai-vos bem que não sois senão os instrumentos dos quais Deus se serve para manifestarão mundo o seu Espírito todo-poderoso, e que não tendes nenhum motivo para vos glorificar por vós mesmos. Há tantos médiuns, ah! que se tomam vãos, em lugar de se tornarem humildes à medida que os seus dons crescem. Isto é um atraso no progresso, porque em lugar de ser humilde e passivo, o médium, freqüentemente, pela sua vaidade e pelo seu orgulho, repele comunicações importantes que vêm então à luz por pessoas mais merecedoras. Deus não olha a posição material de uma pessoa para lhe comunicar o seu espírito de santidade; bem longe disso, porque, freqüentemente, ele eleva os humildes entre os humildes, para dotá-los de maiores faculdades, a fim de que o mundo veja bem que não é o homem, mas o Espírito de Deus peto homem, que faz milagres. O médium é, como eu o disse, o simples instrumento do grande Criador de todas as coisas, e é a este último que é necessário render glória, é a ele que é necessário agradecer pela sua inesgotável bondade.

Eu gostaria de dizer também uma palavra sobre a inveja e o ciúme que, muito freqüentemente, reina entre os médiuns, e que, como a erva má, é necessário arrancar desde que ela comece a aparecer, de medo que ela não abafe os bons germes vizinhos.

No médium o ciúme é tanto a temer como o orgulho; ele prova a mesma necessidade de humildade; direi mesmo que ele denota uma falta de senso comum. Não será vos mostrando ciumentos dos dons do vosso vizinho que os recebereis semelhantes, porque se Deus dá muito a uns e pouco aos outros, estejais certos de que agindo assim ele tem um motivo bem fundado! O ciúme azeda o coração; abafa mesmo os melhores sentimentos; é, pois, um inimigo que não se saberia evitar com muito cuidado, porque não deixa nenhum descanso, uma vez que se apodera de nós; isto se aplica a todos os casos da vida neste mundo; mas eu quis sobretudo falar do ciúme entre médiuns, tão ridículo quanto desprezível e mal fundado, e que prova o quanto o homem é fraco e o quanto se torna escravo de suas paixões.

LUOS

NOTA: Quando da leitura desta última comunicação diante da Sociedade, uma discussão se estabeleceu sobre o ciúme dos médiuns comparado ao dos sonâmbulos. Um dos membros, o Sr. D..., disse que na sua opinião o ciúme é o mesmo nos dois casos, e que se parece tão freqüente nos sonâmbulos, é que, nesse estado, eles, não sabem dissimulá-lo.

O Sr. Allan Kardec refutou esta opinião: "O ciúme, disse ele, parece inerente ao estado sonambúlico, e isso por uma causa da qual é difícil dar-se conta, e que os próprios sonâmbulos não podem explicar. Este sentimento existe entre sonâmbulos que, no estado de vigília, não têm um pelo outro senão da benevolência. Entre os médiuns, é longe de ser habitual, e se prende evidentemente à natureza moral do indivíduo. Um médium não é ciumento de um outro médium, senão porque está em sua natureza ser ciumento; essa falta, conseqüente do orgulho e do egoísmo, é essencialmente nociva à bondade das comunicações, ao passo que o sonâmbulo mais ciumento pode ser muito lúcido, e isto se concebe facilmente. O sonâmbulo vê por si mesmo; é o seu próprio Espírito que se liberta e age: ele não tem necessidade de ninguém; o médium, ao contrário, não é senão um intermediário: ele recebe tudo de Espíritos estranhos, e a sua personalidade está bem menos em jogo do que no sonâmbulo. Os Espíritos simpatizam com ele em razão de suas qualidades ou de seus defeitos: ora, os defeitos que são os mais antipáticos aos bons Espíritos são o orgulho, o egoísmo e o ciúme. A experiência nos ensina que a faculdade mediúnica, enquanto faculdade, é independente das qualidades morais; ela pode, do mesmo modo que a faculdade sonambúlica, existir no mais alto grau nos homens mais perversos. É completamente diferente com respeito às simpatias dos bons Espíritos, que se comunicam naturalmente tanto mais de boa vontade, quanto o intermediário encarregado de transmitir o seu pensamento seja mais puro, mais sincero, e se afaste mais da natureza dos maus Espíritos; eles fazem a esse respeito o que fazemos nós mesmos quando tomamos alguém por confidente. No que concerne especialmente ao ciúme, como esse defeito existe entre quase todos os sonâmbulos, e que é muito raro entre os médiuns, parece que nos primeiros é a regra, e nos segundos a exceção, de onde se seguiria que não deve haver a mesma causa nos dois casos.'

Discurso do Sr. Allan Kardec no banquete de Lyon

Revista Espírita, outubro de 1861


Senhoras e senhores, todos vós, meus caros e bons irmãos em Espiritismo.

Se há circunstâncias em que se possa lamentar a insuficiência de nossa pobre linguagem humana, é quando se trata de exprimir certos sentimentos, e tal é, neste momento, a minha posição. O que eu sinto, ao mesmo tempo, é uma surpresa bem agradável quando vejo o terreno imenso que a Doutrina Espírita ganhou entre vós, há um ano, e admiro a Providência; uma alegria indizível pela visão do bem que ela aqui produz, de consolações que ela derrama sobre tantas dores, ostensivas ou ocultas, e disso deduzo o futuro que a espera; é uma felicidade inexprimível reencontrar-me no meio desta família, tornada tão numerosa em tão pouco tempo, e que aumenta todos os dias; é, enfim, e acima de tudo, uma profunda e sincera gratidão pelos tocantes testemunhos de simpatia que recebo de vós.

Esta reunião tem caráter particular. Graças Deus! Estamos todos aqui, muito bons Espíritas penso, para termos o prazer de nos acharmos juntos, e não o de nos encontrar à mesa; e, seja dito de passagem, creio mesmo que um festim de Espíritas seria uma contradição. Presumo também que, me convidando tão graciosamente e com tantas instâncias, a vir ao vosso meio, não acreditastes que a questão de um banquete fosse motivo de atração para mim; foi o que me apressei a escrever aos meus bons amigos Rey e Dijoud, quando se escusaram sobre a simplicidade da recepção; porque, ficai bem convencidos de que o que mais me honra nesta circunstância, o de que, com razão, posso estar orgulhoso, é a cordialidade e a sinceridade da acolhida, o que se encontra muito raramente nas recepções pomposas, porque aqui não há máscaras sobre os rostos.

Se uma coisa pudesse atenuar a felicidade que tenho por me encontrar em vosso meio, seria não poder permanecer senão tão pouco tempo; ser-me-ia muito agradável prolongar minha estada num dos centros mais numerosos e mais zelosos do Espiritismo; mas, uma vez que desejais receber algumas instruções de minha parte, não achareis mau, sem dúvida, que, a fim de utilizar todos os instantes, eu saia um pouco das banalidades muito comuns em semelhantes circunstâncias, e que minha alocução empreste alguma gravidade à própria gravidade do assunto que nos reuniu. Certamente, se estivéssemos num repasto de bodas ou de batismo, seria intempestivo falar das almas, da morte, e da vida futura; mas, eu o repito, estamos aqui para nos instruir, antes que para comer, e, em todo caso, não é para nos divertir.

Não creiais, senhores, que esta espontaneidade que vos levou a vos reunir aqui seja um fato puramente pessoal; esta reunião, disso não duvideis, tem um caráter pessoal e providencial; uma vontade superior a provocou; mãos invisíveis a isso vos impeliram, com o vosso desconhecimento e talvez um dia ela marcará nos fastos do Espiritismo. Possam nossos irmãos futuros se lembrarem deste dia memorável em que os Espíritas lioneses, dando o exemplo de união e de concórdia, colocaram, nesses novos banquetes o primeiro passo da aliança que deve existir entre os Espíritas de todos os países do mundo; porque o Espiritismo, restituindo ao Espírito o seu verdadeiro papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria, apaga naturalmente todas as distinções estabelecidas entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais só o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos da cor. O Espiritismo, alargando o círculo da família pela pluralidade das existências, estabelece entre os homens uma fraternidade mais racional do aquela que não tem por base senão os frágeis laços da matéria, porque esses laços são perecíveis, ao passo que os do Espírito são eternos. Esses laços, uma vez bem compreendidos, influirão pela força das coisas, sobre as relações sociais, e mais tarde sobre a legislação social, que tomará por base as leis imutáveis do amor e da caridade; então ver-se-á desaparecem essas anomalias que chocam os homens de bom senso, como as leis da Idade Média chocam os homens de hoje. Mas isto é obra do tempo, deixemos a Deus o cuidado de fazer chegar cada coisa à sua hora; esperemos tudo de sua sabedoria e agradeçamo-lo somente por nos ter permitido assistir à aurora que se eleva para a Humanidade, e de nos ter escolhido como os primeiros pioneiros da grande obra que se prepara. Que ele se digne derramar a sua bênção sobre esta assembléia, a primeira onde os adeptos do Espiritismo estão reunidos em tão grande número, num sentimento de verdadeira confraternização.

Digo verdadeira confraternização, porque tenho a íntima convicção de que todos aqui presentes, não trazem nenhuma outra; mas não duvideis que numerosas coortes de Espíritos estão aqui entre nós, que nos escutam neste momento, espiam todas as nossas ações, e sondam os pensamentos de cada um, investigando sua força ou sua fraqueza moral. Os sentimentos que os animam são bem diferentes; se uns estão felizes com esta união, outros, crede-o bem, estão horrivelmente enciumados com ela; saindo daqui, vão tentar semear a discórdia e a desunião; cabe-vos a todos vós, bons e sinceros Espíritas, provar-lhes que perdem seu tempo, e que se enganam crendo encontrar aqui corações acessíveis às suas pérfidas sugestões. Invocai, pois, com fervor a assistência de vossos anjos guardiães, a fim de que afastem de vós todo pensamento que não seria para o bem; ora, como o mal não pode ter a sua fonte no bem, o simples bom senso nos diz que todo pensamento mau não pode vir de um bom Espírito, e um pensamento é necessariamente mau quando é contrário à lei de amor e de caridade; quando ele tem por móvel a inveja e o ciúme, o orgulho ferido, ou mesmo uma pueril suscetibilidade de amor-próprio melindrado, irmão gêmeo do orgulho, que levaria a olhar seus irmãos com desdém. Amor e caridade para todos, disse o Espiritismo; amarás a teu próximo como a ti mesmo, disse o Cristo: isto não é sinônimo?

Eu vos felicitei, meus amigos, pelo progresso que o Espiritismo fez entre vós, e estou mais feliz por constatá-lo. Felicitai-vos, de vosso lado, daquilo que esse progresso é por toda parte; sim, este último ano viu, em todos os paísesi o Espiritismo crescer numa proporção que excedeu todas as esperanças; ele está no ar, nas aspirações de todos, e por toda a parte onde encontra eco, bocas que repetem: Eis o que eu esperava, o que uma voz secreta me fazia pressentir. Mas o progresso se manifesta ainda sob uma nova fase: é a coragem de sua opinião, que não existia ainda há pouco tempo. Não era senão em segredo, às escondidas que dele se falava; hoje confessa-se Espírita tão claramente quanto se confessa católico, judeu ou protestante; afronta-se a zombaria, e essa ousadia impõe aos zombadores, que são como esses cãezinhos que correm depois daqueles que fogem, e fogem se são perseguidos; ela dá coragem aos tímidos, e revela, em muitas localidades, numerosos Espíritas que se ignoravam mutuamente. Pode deter-se esse movimento? Pode-se detê-lo? Eu o digo claramente: Não; lançou-se mão de tudo para isso: sarcasmos, zombadas, ciência, anátema, e ele tudo suplantou sem retardar a sua marcha num segundo; cego, pois, quem não veja aí o dedo de Deus. Pode-se entravá-lo; detê-lo jamais, porque se não correr à direita, ele correrá à esquerda.

Vendo os benefícios morais que proporciona, as consolações que dá, os crimes mesmo que já impediu, pergunta-se quem pode ter interesse em combatê-lo. Ele tem contra si primeiro os incrédulos que o injuriam: estes não são de se temer, uma vez que se viram seus dardos afiados quebrar-se contra a sua couraça; os ignorantes que o combatem sem conhecê-lo: estes são os mais numerosos; mas a verdade, combatida pela ignorância, jamais teve a temer, porque os ignorantes se refutam eles mesmos sem o querer, testemunha o Sr. Louis Figuier em sua Historie du mer-veilleux. A terceira categoria de adversários é a mais perigosa, porque é tenaz e pérfida; ela se compõe de todos aqueles cujos interesses materiais podem ser feridos; combatem na sombra, e as setas envenenadas da calúnia não lhes faltam. Eis os verdadeiros inimigos do Espiritismo, como tiveram todas as idéias de progresso em todos os tempos, e os encontrareis em todas as fileiras em todas as classes da sociedade. Vencerão? Não; porque não é dado ao homem se opor à marcha da Natureza, e o Espiritismo está na ordem das coisas naturais; será preciso, pois, que cedo ou tarde tomem o seu partido, e que aceitem o que será aceito por todo o mundo. Não, não o vencerão; serão eles que serão vencidos.

Um novo elemento vem se juntar à legião dos Espíritas: é o das classes trabalhadoras; e notai nisso a sabedoria da Providência. O Espiritismo, em primeiro lugar, propagou-se nas classes esclarecidas, nas sumidades sociais; isto era necessário, primeiro, para lhe dar mais crédito, segundo, porque foi elaborado e purgado das idéias supersticiosas que a falta de instrução teria podido nele introduzir, e com as quais o teria sido confundido. Apenas constituído, podendo-se falar assim de uma ciência tão nova, tocou a classe trabalhadora e nela se propagou com rapidez. Ah! É que lá há tanto de consolações a dar, tanto de coragem moral a levantar, tanto de lágrimas a secar, tanto de resignação a inspirar, que ele foi acolhido como uma âncora de salvação, como uma proteção contra as terríveis tentações da necessidade. Por toda a parte onde o vi penetrar na morada do trabalho, por toda a parte o vi ali produzir seus benfazejos efeitos moralizadores. Regozijai-vos, pois, operários lioneses que me escutais, porque tendes em outras cidades, tais como Sens, Lille, Bordeaux, irmãos Espíritas que, como vós, abjuraram as culpáveis esperanças da desordem e os criminosos desejos da vingança. Continuai a provar, pelo vosso exemplo, os benfazejos resultados desta doutrina. Àqueles que perguntam para que ela pode servir? respondei-lhes: Em meu desespero eu queria me matar: o Espiritismo me deteve, porque sei o que poderia me custar abreviar voluntariamente as provas que apraz a Deus enviar aos homens; para me estontear eu me embriagava: compreendi que desprezível era por me tirar voluntariamente a razão e que me privava assim de ganhar meu pão e o de meus filhos; estava divorciado de todos os sentimentos religiosos: hoje eu oro a Deus e coloco a minha esperança em sua misericórdia; eu não cria em coisa alguma senão no nada como supremo remédio para as minhas misérias: meu pai se comunicou comigo e me disse: Meu filho, coragem! Deus te vê; ainda um esforço e serás salvo! coloquei-me de joelhos diante de Deus e lhe pedi perdão; vendo os ricos e os pobres, as pessoas que têm tudo e outras que não têm nada, eu acusava a Providência: hoje sei que Deus pesa tudo na balança de sua justiça e espero o seu julgamento; se está em seus decretos que eu deva sucumbir na miséria, pois bem! sucumbirei, mas com a consciência pura, mas sem levar o remorso de ter roubado um óbolo àquele que poderia me salvar a vida. Dizei-lhe: Eis para que serve o Espiritismo, essa loucura, essa quimera, como o chamais. Sim, meus amigos, continuai a pregar pelo exemplo; fazei compreender o Espiritismo com as suas conseqüências salutares, e quando ele for compreendido, não se assustarão mais; bem mais, será acolhido como uma garantia da ordem social, e os próprios incrédulos serão forçados a falarem dele com respeito.

Falei do progresso do Espiritismo; com efeito, não se tem exemplo que uma doutrina, qualquer que ela seja, haja caminhado com tanta rapidez, sem excetuar mesmo o cristianismo. Isto quer dizer que lhe seja superior, que deve suplantá-lo? Não; mas é aqui o lugar de fixar-lhe o verdadeiro caráter, a fim de destruir uma prevenção, geralmente, bastante difundida entre aqueles que não o conhecem.

O cristianismo, em seu nascimento, tinha que lutar contra um poder terrível: o Paganismo, então universalmente difundido; não havia entre eles nenhuma aliança possível, não mais do que entre a luz e as trevas: em uma palavra, não podia se propagar senão destruindo o que existia; também a luta foi longa e terrível; as perseguições disso são a prova. O Espiritismo, ao contrário, nada tem a destruir, porque se assenta sobre as próprias bases do cristianismo; sobre o Evangelho, do qual não é senão a aplicação. Concebeis a vantagem, não de sua superioridade, mas de sua posição. Não é, pois, assim como alguns o pretendem, sempre porque não o conhecem, uma religião nova, uma seita que se forma às expensas de suas irmãs mais velhas: é uma doutrina puramente moral que não se ocupa, de nenhum modo, dos dogmas e deixa a cada um inteira liberdade de suas crenças, uma vez que não se impõe a ninguém; e a prova disso é que tem adeptos em todas, entre os mais fervorosos católicos, como entre os protestantes, entre os judeus e os muçulmanos. O Espiritismo repousa sobre a possibilidade de se comunicar com o mundo invisível, quer dizer, com as almas; ora, como os judeus, os protestantes, os muçulmanos têm alma como nós, disso resulta que podem se comunicar com elas tão bem quanto conosco, e que, por conseguinte, podem ser Espíritas como nós.

Não é mais uma seita política, como não é uma seita religiosa; é a constatação de um fato que não pertence mais a um partido que a eletricidade e os caminhos de ferro; é, digo eu, uma doutrina moral, e a moral está em todas as religiões e em todos os partidos.

A moral que ele ensina é boa ou má? É subversiva? Aí está toda a questão. Que se estude, e saber-se-á a que se agarrar. Ora, uma vez que é a moral do Evangelho desenvolvida e aplicada, condená-la seria condenar o Evangelho.


Fez o bem ou o mal? Estudai ainda e vereis. Que fez ele? Impediu inumeráveis suicídios; levou a paz e a concórdia a um grande número de famílias; tornou dóceis e pacientes os homens violentos e coléricos; deu resignação àqueles que não a tinham, consolações aos aflitos; levou a Deus aqueles que o desconheciam, destruindo as idéias materialistas, verdadeira praga social, que aniquila a responsabilidade moral do homem; eis o que fez, o que faz todos os dias, o que fará mais e mais à medida que estiver mais difundido. Está aí o resultado de uma doutrina má? Mas não sei que alguém tenha jamais atacado a moral do Espiritismo; somente diz-se que a religião pode produzir tudo isso. Convenho com isso perfeitamente; mas então por que não o produz sempre? É porque nem todo mundo a compreende; ora, o Espiritismo, tornando claro e inteligível para todos o que não o é, evidente o que é duvidoso, conduz à aplicação; ao passo que não se sente jamais a necessidade daquilo que não se compreende; portanto, o Espiritismo, longe de ser o antagonista da religião, dela é o auxiliar; e a prova é que reconduz às idéias religiosas aqueles que a haviam repelido. Em resumo, jamais aconselhou mudar de religião, nem de sacrificar as suas crenças; não pertence em particular a nenhuma religião ou, para dizer melhor, ele está em todas as religiões.

Algumas palavras ainda, senhores, eu vos peço, sobre uma questão toda prática. O número crescente dos Espíritas, em Lyon, mostra a utilidade do conselho que vos dei no ano passado, relativamente à formação dos grupos. Reunir todos os adeptos em uma só sociedade, hoje já seria uma coisa materialmente impossível, e que o será bem mais ainda em algum tempo. Além do número, as distâncias a percorrer em razão da extensão da cidade, as diferenças de hábito segundo as posições sociais, acrescentam a essa impossibilidade. Por esse motivo, e por muitos outros que seria muito longo desenvolver aqui, uma única sociedade é uma quimera impraticável; multiplicai os grupos o mais possível; que haja dez deles, que haja cem, se for necessário, e ficai certos de que chegareis mais rápido e mais seguramente.

Haveria aqui coisas muito importante a dizer sobre a questão da unidade de princípios; sobre a divergência que poderia existir, entre eles, sobre alguns pontos; mas me detenho para não abusar da vossa paciência em me escutar, paciência que já coloquei a prova muito longa. Se o desejais, disso farei o objeto de uma instrução especial que vos remeterei proximamente.

Eu termino, senhores, esta alocução, na qual me deixei arrastar pela própria raridade das ocasiões que tenho de ter a felicidade de estar em vosso meio. Levarei, de vossa benevolente acolhida, uma lembrança que não se apagará jamais, disso ficai bem persuadidos.

Ainda uma vez, meus amigos, obrigado do fundo do coração pelas marcas de simpatia que consentistes me dar; obrigado pelas boas palavras que me dirigistes pelos vossos intérpretes, e das quais não aceito senão o dever que elas me impõem, por aquilo que me resta a fazer, e não os elogios. Possa esta solenidade ser a garantia da união que deve existir entre todos os verdadeiros Espíritas!

Levo um brinde aos Espíritas lioneses, e a todos aqueles, dentre eles, que se distinguem por seu zelo, seu devotamento, sua abnegação, e que vós os enumereis, vós mesmos, sem que eu tenha a necessidade de fazê-lo.

Aos Espíritas lioneses, sem distinção de opinião, estejam ou não presentes!


Senhores, os Espíritos querem também ter sua parte nesta festa de família, e nela dizer suas palavras. O de Erasto, que conheceis pelas notáveis dissertações que foram publicadas na Revista, ditou espontaneamente, antes de minha partida, e em vossa intenção, a epístola seguinte, da qual me encarregou de vos ler em seu nome. É com alegria que me desincumbo desse encargo. Tereis assim a prova de que os Espíritos que se comunicam convosco não são os únicos a se ocuparem de vós e do que vos concerne. Esta certeza não pode senão consolidar a vossa fé e a vossa confiança, vendo que o olho vigilante dos Espíritos superiores se estende sobre todos, e que, sem disso duvidar, sois também o objeto de sua solicitude.

quarta-feira, outubro 06, 2004

O mistério do bem e do mal

Autoria: José Herculano Pires
Fonte: "Correio Fraterno do ABC", São Bernardo do Campo, 1992

Sem a formação doutrinária, não teremos um movimento espírita coeso e coerente. E, sem coesão e coerência, não teremos Espiritismo. Essa a razão por que os Espíritos Superiores confiaram às mãos de Kardec o pesado trabalho da Codificação. Kardec teve de arcar, sozinho, com a execução dessa obra gigantesca. Porque só ele estava em condições de realizá-la. Depois de Kardec, o que vimos? Léon Denis foi o único dos seus discípulos que conseguiu manter-se à altura do mestre, contribuindo vigorosamente para a consolidação da Doutrina. Era, aparentemente, o menos indicado. Não tinha a formação cultural de Kardec, residia na província, não convivera com ele, mas soubera compreender a posição metodológica do Espiritismo e não a confundia com os desvarios espiritualistas da época.

Depois de Denis, foi o dilúvio. A Revista Espírita virou um saco de gatos. A Sociedade Parisiense naufragou em águas turvas. A Ciência e a Filosofia Espíritas ficaram esquecidas. O aspecto religioso da Doutrina transviou-se na ignorância e no fanatismo. Os sucessores de Kardec fracassaram inteiramente na manutenção da chama espírita, na França. E, quando a Árvore do Evangelho foi transplantada para o Brasil, segundo a expressão de Humberto de Campos, veio carregada de parasitas mortais que, ao invés de extirpar, tratamos de cultivar e aumentar com as pragas da terra.

Tudo isso por quê? Por falta pura e simples de formação doutrinária. A prova está ai, bem visível, no fluidismo e no obscurantismo que dominam o nosso movimento no Brasil e no Mundo. Os poucos estudiosos, que se aprofundaram no estudo de Kardec, vivem como náufragos num mar tempestuoso, lutando, sem cessar, com os mesmos destroços de sempre. Não há estudo sistemático e sério da Doutrina. E o que é mais grave, há evidente sintoma de fascinação das trevas, em vastos setores representativos que, por incrível que pareça, combatem por todos os meios o desenvolvimento da cultura espírita.

Enquanto não compreendermos que Espiritismo é cultura, as tentativas de unificação do nosso movimento não darão resultados reais. Darão aproximações arrepiadas de conflitos, aumento quantitativo de adeptos ineptos, estimulação perigosa de messianismos individuais e de grupos. Flamarion, que nunca entendeu realmente a posição de Kardec, e chegou a dizer que ele fez obra um tanto pessoal, como se vê no seu famoso discurso ao pé do túmulo, teve, entretanto, uma intuição feliz quando o chamou de bom senso encarnado. Esse bom senso é que nos falta. Parece haver se desencarnado com Kardec, e volatizado com Denis. Hoje, estamos na era do contra-senso. Os mesmos órgãos de divulgação doutrinária que pregam o obscurantismo, exibem pavoneios de erudição personalista, em nome de uma cultura inexistente. Porque cultura não é erudição, livros empilhados nas estantes, fichário em ordem para consultas ocasionais. Cultura é assimilação de conhecimentos e bom senso em ação.

O que fazer diante dessa situação? Cuidar da formação espírita das novas gerações, sem esquecer a alfabetização de adultos. Mobral: esse o recurso. Temos de organizar o Mobral do Espírito. E começar tudo de novo, pelas primeiras letras. Mas, isso em conjunto, agrupando elementos capazes, de mente arejada e coração aberto. Foi por isso que propus a criação das Escolas de Espiritismo, em nível universitário, dotadas de amplos currículos de formação cultural espírita.

Podem dizer que há contradições entre Mobral e nível universitário. Mas, nota-se, que falamos de Mobral do Espírito. A Cultura Espírita é o desenvolvimento da cultura acadêmica, é o seguimento natural da cultura atual, em que se misturam elementos cristãos, pagãos e ateus. Para iniciar-se na cultura espírita, o estudante deve possuir as bases da cultura anterior. "Tudo se encadeia no Universo", como ensina, repetidamente, O Livro dos Espíritos. Quem não compreende esse encadeamento, tem de iniciar pelo Mobral. Não ha outra forma de adaptá-lo às novas exigências da nova cultura.

A verdade nua e crua é que ninguém conhece Espiritismo. Ninguém mesmo, no Brasil e no Mundo. Estamos todos aprendendo, ainda, de maneira canhestra. E se me permito escrever isto, é porque aprendi, a duras penas, a conhecer a minha própria indigência. No Espiritismo, como já se dava no Cristianismo e na própria filosofia grega, o que vale é o método socrático. Temos, antes de tudo, de compreender que nada sabemos. Então, estaremos, pelo menos, conscientes de nossa ignorância e capazes de aprender.

Mas, aprender com quem? Sozinhos, como autodidatas, tirando nossas próprias lições dos textos, confiantes nas luzes da nossa ignorância? Recebendo lições de outros que tateiam como nós, mas que estufam o peito de auto-suficiência e pretensão? Claro que não. Ao menos isso devemos saber. Temos de trabalhar em conjunto, reunindo companheiros sensatos, bem intencionados, não fascinados por mistificações grosseiras e evidentes, capazes de humildade real, provada por atos e atitudes. Assim conjugados, poderemos aprender de Kardec, estudando suas obras, mergulhando em seus textos, lembrando-nos de que foi ele e só ele o incumbido de nos transmitir o legado do Espírito da Verdade. Kardec é a nossa pedra de toque. Não por ser Kardec, mas por ser o intérprete humilde que foi, o homem sincero e puro a serviço dos Espíritos Instrutores.

É o que devemos ter nas Escolas de Espiritismo. Não Faculdades, nem Academias, mas, simplesmente, Escolas. O sistema universitário implica pesquisas, colaboração entre professores e alunos, trabalho conjugado e sem presunção de superioridade de parte de ninguém. O simpósio e o seminário, o livre debate, enfim, é que resolvem, e não o magister do passado. O espírito universitário, por isso mesmo, é o que melhor corresponde à escola espírita. Num ambiente assim, os Espíritos Instrutores disporão de meios para auxiliar os estudantes sinceros e despretensiosos.

A formação espírita exige ensino metódico mas, ao mesmo tempo, livre. Foi o que os Espíritos deram a Kardec: um ensino de que ele mesmo participava, interrogando os mestres e discutindo com eles. Por isso, não houve infiltração de mistificadores na obra inteiriça, nesse bloco de lógica e bom senso, que abrange os cinco livros fundamentais de Codificação, os volumes introdutórios e os volumes da Revista Espírita, redigidos por ele durante quase doze anos de trabalho incessante.

Essa obra gigantesca é a plataforma do futuro, o alicerce e o plano de um novo mundo, de uma nova civilização. Seria absurdo pensar que podemos dominar esse vasto acervo de conhecimentos novos, de conceitos revolucionários, através de simples leituras individuais, sem método e sem pesquisa. Nosso papel, no Espiritismo, tem sido o de macacos em loja de louças. E incrível a leviandade com que oradores e articulistas espíritas tratam de certos temas, com uma falsa suficiência de arrepiar, lançando confusões ridículas no meio doutrinário. Temos de compreender que isso não pode continuar. Chega de arengas melífluas nos Centros, de oratória descabelada, de auditórios basbaques, batendo palmas e palavreado pomposo. Nada disso é Espiritismo. Os conferencistas espíritas precisam ensinar Espiritismo - que ninguém conhece - mas para isso precisam, primeiro aprendê-lo.

Precisamos de expositores didáticos, servidos por bom conhecimento doutrinário, arduamente adquirido em estudos e pesquisas. Expor os temas fundamentais da Doutrina, não é falar bonito, com tropos pretensamente literários, que só servem para estufar vaidade, à maneira da oratória bacharelesca do século passado. Esse palavrório vazio e presunçoso não constrói nada e só serve para ridicularizar o Espiritismo ante a mentalidade positiva e analítica do nosso tempo.

Estamos numa fase avançada da evolução terrena. Nossa cultura cresceu espantosamente nos últimos anos e já está chegando à confluência dos princípios espíritas em todos os campos. A nossa falta de formação cultural espírita não nos permite enfrentar a barreira dos preconceitos para demonstrar ao mundo que Espiritismo, como escreveu Humberto Mariotti, é uma estrela de amor que espera no horizonte do mundo o avanço das ciências. É curiosa e ridícula a nossa situação. Temos o futuro nas mãos e ficamos encravados no passado mitológico e nas querelas medievais.

Mas, para superar essa situação, temos de aprender com Kardec. Os que pretendem superar Kardec, não o conhecem. Se o conhecessem, não assumiriam a posição ridícula de críticos e inovadores do que, na verdade, ignoram. Chegamos a uma hora de definições. Precisamos definir a posição cultural espírita perante a nova cultura dos tempos novos. E só faremos isso através de organismos culturais bem estruturados, funcionais, dotados de recursos escolares capazes de fornecer, aos mais aptos e mais sinceros, a formação cultural de que todos necessitamos, COM URGÊNCIA.


PIRES, José Herculano - O mistério do bem e do mal - "Correio Fraterno do ABC", São Bernardo do Campo, 1992, pág 115/19.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Coerência Espírita

O objetivo deste blog é o de fornecer um espaço para a publicação ou transcrição de textos e artigos que façam uma reflexão sobre o Espiritismo e seus caminhos no Brasil e no mundo, sobretudo buscando uma análise crítica quando for detectada uma oportunidade em se retomar a coerência espírita que por vezes é deixada de lado em nome de conceitos estranhos à Doutrina.

Não temos a intenção de converter ninguem à nossa maneira de refletir o Espiritimo, assim como não temos a ilusão de estarmos corretos enquanto as demais pessoas estão erradas, mas temos sim a pretensão de mostrar que existe uma alternativa na reflexão espírita, a qual acreditamos ser mais próxima à coerência com os princípios doutrinários. Se os leitores quiserem aderir à essa maneira de pensar, ótimo. Caso não queiram, excelente, continuarão sendo livres para pensar como desejarem.