segunda-feira, março 07, 2005

Herculano Pires responde a proposta de Pietro Ubaldi...

A mensagem que Pietro Ubaldi enviou ao VI Congresso Espírita Pan-Americano, realizado neste mês em Buenos Aires [outubro de 1963], vem causando estranheza nos meios doutrinários. Depois de discorrer sobre a estagnação das religiões, o autor de A Grande Síntese chega às seguintes conclusões:
1 - O Espiritismo estacionou na teoria da reencarnação e na prática mediúnica;
2 - Não possuindo “um sistema conceptual completo”, não pode ele ser levado a sério pela cultura atual;
3 - A filosofia espírita é limitada, não oferece uma visão completa do Todo e “não abrange todos os momentos da lei de Deus;
4 – O Espiritismo não construiu uma “teologia espírito-científica, que explique o que a católica não explica”;
5 - O Espiritismo “corre o perigo de ficar parado no nível Allan Kardec, como o catolicismo ficou no nível São Tomás e o protestantismo no nível Bíblia”.
Diante dessa situação, propõe Ubaldi a adoção, pelo Espiritismo, dos livros de sua autoria, abrangendo a “série italiana” e a “série brasileira”. E explica: “Trata-se de um produto realizado de uma forma que permite que ele caiba dentro do Espiritismo, porque atingido por inspiração, que é por ele julgada a mais alta forma de mediunidade, aquela consciente, controlada pela razão”. E logo mais afirma: “Só assim o Espiritismo poderá avançar paralelo à ciência e exigir atenção de parte dos materialistas, porque usa a forma mental e os métodos racionais dele. Só assim o Espiritismo poderá sair do trilho dos costumeiros conceitos que se repetem nas sessões rnediúnicas e colocar-se no nível do mais adiantado pensamento moderno, penetrando no terreno da filosofia e da ciência e situando-se na sua altura”.
A redação e a tradução dessa mensagem de Ubaldi, como se vê, por estes pequenos trechos, estão muito abaixo do texto de suas obras mais inspiradas, que pertencem à “série italiana”.
Por outro lado, verifica-se que faltou a Ubaldi a percepção necessária para captar o processo espírita em suas verdadeiras dimensões. O admirável médium de A Grande Síntese revela absoluta falta de acuidade e de compreensão da realidade espírita no mundo de hoje, onde o Espiritismo vem cumprindo serenamente a sua finalidade. A sua crítica ao Espiritismo, resumida nos cinco pontos acima, coincide com a dos adeptos menos instruídos na doutrina, e pode ser respondida, ponto por ponto, por qualquer adepto de inteligência e cultura medianas, que conheça a Doutrina Espírita. Por outro lado, o oferecimento de suas obras ao Espiritismo revela desconhecimento da natureza da nossa doutrina e das exigências metodológicas para a aceitação da proposta, que não cobre essas exigências. Ubaldi desenvolveu suas faculdades mediúnicas à margem do Espiritismo. Seu primeiro livro, A Grande Síntese, apresenta curioso paralelismo com o Espiritismo, o que lhe valeu a simpatia e a amizade dos espíritas brasileiros. Na Itália ou no Brasil, porém, Ubaldi recusou-se sempre a integrar-se no movimento espírita, filiando-se na península à corrente da Ultrafânia, do prof. Trespioli, que pretende haver superado a concepção espírita. Em seu livro As Noures, Ubaldi nos oferece a concepção ultrafâníca da mediunidade, na qual enquadra o seu caso pessoal. É uma pretensiosa concepção de mediunidade cósmica, fugindo à naturalidade e simplicidade das comunicações espirituais entre espíritos desencarnados e médiuns. As pretensões de Ubaldi o transformaram, de simples médium em autor messiânico, agora arvorado em reformador do Espiritismo.
Respondemos aos itens da sua crítica da seguinte maneira:
1 - O Espiritismo é uma doutrina evolucionista, como o provam as suas obras fundamentais e o seu imenso desenvolvimento em apenas cem anos de existência;
2 - O sistema conceptual espírita é completo e sua síntese está em O Livro dos Espíritos;
3 - A filosofia espírita não pode abranger o Todo e muito menos “todos os momentos da lei de Deus”, porque isso não está ao alcance de nenhuma elaboração mental, no plano relativo da vida terrena;
4 - A teologia espírita é limitada às possibilidades atuais do conhecimento de Deus, segundo ensina Allan Kardec, e essas possibilidades não admitem ainda a criação na Terra de uma teologia científica, nem dentro nem fora do Espiritismo;
5 - O “nível Allan Kardec” não é o do Espiritismo, mas sim o “nível Espírito da Verdade”, de quem Kardec, segundo dizia, foi um “simples secretário”.
Encontrando-se, pois, nesse plano de revelação constante e progressiva, que é o da manifestação do Espírito da Verdade, segundo o próprio Kardec adverte, o Espiritismo está livre dos perigos da estagnação dogmática. Se, pelo contrário, adotasse as obras de Ubaldi para completá-lo, o Espiritismo cairia imediatamente no dogmatismo. Para cumprir sua missão, em todos os campos da atividade humana, o Espiritismo tem de manter-se como Ciência do Espírito (que investiga o elemento inteligente do Universo, paralelamente com a Ciência da Matéria, que investiga o elemento material); como Filosofia Livre, “sem os prejuízos do espírito de sistema”, segundo a expressão feliz de Kardec; e como Religião em Espírito e Verdade, de acordo com o anúncio do Cristo à Mulher Samaritana.
De nossa parte, não obstante o respeito que votamos ao médium e sua obra, altamente inspirada, não poderíamos dar-lhe outra resposta, além da que apresentamos nestas linhas. Se Ubaldi tivesse lido “O Livro dos Espíritos” certamente jamais faria a proposta que fez. Mesmo porque a sua obra, como a de Flamarion, a de Delanne, a de Denis, a de Bozzano e tantas outras, longe de completar o Espiritismo, apenas procuram desenvolver alguns dos grandes temas que o Espiritismo levantou e sustenta no mundo moderno.

9 comentários:

codsid disse...

muito bom... ofereço algo que escrevi: http://codsid.blogspot.com/2005/09/crtica-ao-espiritismo.html

Anônimo disse...

Ubaldi, sem sombra de dúvidas mostrou coerência e certa consciência em suas afirmações sobre o espiritismo.
O espiritismo está muito distante das verdades de ponta, das coerências e maturidades universalistas presentes e disponíveis hoje em nosso plantena.
Atualmente temos a conscienciologia fundada pelo professor, médico e odontólogo Waldo Vieira - como um modelo de ciência do espírito e da consciência humanas -, a qual está em um nível evolutivo imensuravelmente além do espiritismo. A conscienciologia é um paradigma científico e consciencial não estagnada, não dogmatizada, coerente e em constante evolução.
O espiritismo é dogmático -, embora pensem seus seguidores que por ter um maior abertismo em relação as demais religiões cristãs, o mesmo é algo mais próximo de uma verdade universal.
O espiritismo estagnou-se em filosofias ultrapassadas e restritas a um âmbito anti-evolutivo. Filosofias essas ainda presas ao pensamento inicial de Kardec.
Do que a dianta a mediunidade, se esta não leva o homem a dimensões mais elevadas e lúcidas dos verdadeiros potenciais da consciência humana ?
Do que adianta a fé nos bons espíritos se o ser humano por si só não tornar-se consciente da necessidade de busca de suas reais dimensões e possibilidades existenciais, bem como a busca pela programação de vida com comprometimento , maturidade e lucidez ?
Do que adianta uma doutrina que não compreende e não tem consciência da verdadeira assistencialidade humanista e cosmoética, limitando-se ainda ao velhos conceitos de caridade ?
Que ajuda se pode dar aos outros quando não conhecemos nossa real programação de vida, quando o principal objetivo não é o auto-conhecimento ? ("Homem conhece-te a ti mesmo.").
O ser humano só pode crescer e evoluir em sua consciência quando transcende as doutrinas, os "ismos"... Quando abre mão de si (seu egão) em busca de uma real evolução consciencial baseada na lucidez e na cosmoética.
Religiões e doutrinas, inclusive o espiritismo, já perderam a muito tempo a capacidade de romper paradigmas existenciais.
Somente a busca pelo auto-conhecimento, o comprometimento à partir do aquí agora, a compreensão madura da multidimensionalidade, o desenvolvimento maduro, sadio, coerente e lúcido do parapsiquismo livre dos assédios, o desejo real por auto-conhecimento -, entre tantos outros fatores é que podem levar o ser humano ao seu patamar ideal de consciencialidade e lucidez.
Dentro deste âmbito, o espiritismo enquanto doutrina, enquanto filosofia e enquanto religião falhou e falhou tanto como as religiões cristãs em um todo.
Pietro Ubaldi mostrou que continua, mesmo no plano extra-físico, comprometido com algo que sempre acreditou:
A evolução.

Fábio R. Teixeira

Eronildo Aguiar disse...

Gostaria muito de ler a íntegra da proposta de Ubaldi, para fazer uma avaliação.

Se alguém tiver, seria muito interessante disponibilizá-la.

Abraço.
Eronildo Aguiar

José Eduardo da Rocha Frota disse...

Sinceramente, fiquei sem entendr o que o nosso amigo anônimo quís dizer. Não acho que quaisquer de suas críticas ao espiritismo estejam corretas, a não ser...a não ser que para ele o espiritismo seja visto apenas como religião, onde as pessoas procuram as soluções para seus problemas, e não como filosofia, quando cada um, que se adere à ela, procura elevar-se até Deus, ou como ciência, onde cada adépto procura evoluir com a revelação de suas verdades dia a dia conseguidas. Portanto, cabe inteira razão às observações de Herculano Pires.

JOSÉ EDUARDO DA ROCHA FROTA
São Paulo, 21 de julho de 2008

Anônimo disse...

Estávamos nas trevas agora temos muita luz, isto nos ofusca, fiquemos com as palavras de Jesus.
"Só pelo amor será salvo o homem"
NOS AMEMOS e a verdade nos será mostrada.
Cuidado é isso que eles querem. Que os trabalhadores da ultima hora se desentendam para que o esforço que vemos fazendo a milênios seja todo perdido.

Um abraço fraternal para todos.

Val Yagami disse...

Nossa, esse blog foi minha primeira fonte de pesquisa sobre Ubaldi. Fiquei impressionado.

É deprimente ver como a falta de aprofundamento leva a resultados tão lastimáveis quanto os apresentados por Ubaldi neste relato e por Waldo Vieira.

Anônimo disse...

Também acho de Kardec tá pra lá de ultrapassado... Já fui espírita e hoje não sou mais... O Espiritismo em seu universo teórico foge em muito no universo da prática... Não é Ciência e como se mostra jamais poderia ser. Religião é, porque tem dogmas. É Doutrina. Filosofia não sei se é, pois as próprias classes filosóficas não enquadram o espiritismo como sendo filosofia...

É isso...

Anônimo disse...

Oi Eronildo, para combater as ideias de Ubaldi difundidas no centro em que eu frequento, tive que ler 15 livros publicados por ele, não consegui ler mais. A qualidade do texto é ruim, prolixa. Sugiro que voce leia "para entender Pietro Ubaldi" de Jorge Damas Martins e Julio Couto Damasceno". Livro didático. Os dois são espiritas e conhecem a fundo Pietro Ubaldi, devendem as ideias dele. Ninguem é perfeito.

Nelio Alves Gomes disse...

No Evangelho Segundo o Espiritismo está dito que tudo o que temos que fazer é combater nosso orgulho e egoísmo e vaidade.
Também está dito que a caridade é o caminho, é a arma de que dispomos para este combate.
Então aparecem "ESPÍRITOS SUPER EVOLUÍDOS VINDOS DE GALAXIAS LONGINQUAS" nos dizendo que o envangelho está ultrapassado e que a caridade está fora de moda...
OH DEUS DOS DESGRAÇADOS, EU VOS AGRADEÇO POR PERMITIR A MIM,(ESTE VERME RASTEJANTE), CONTEMPORIZAR COM ESPÍRITOS DA MAIS ALTA "NOBREZA" ESPIRITUAL. EU, QUE AINDA NÃO CONSIGO PRATICAR NEM MESMO O PREFÁCIO DO EVANGELHO DO ESPÍRITO DE VERDADE. TEMO CONTAMINAR ESTAS NOBRES ALMAS COM MINHA PRESENÇA IMUNDA E MAL-CHEIROSA.
OH DEUS, SÓ O SR. SABE O QUE EU FALARIA SE ESTE BLOG, ESTA CONVERSA, FOSSE NUM ESTÁDIO DE FUTEBOL..!
NÉLIO ALVES GOMES - CURITIBA (PR)