domingo, janeiro 07, 2007

O médium solitário

O médium solitário vive apenas em duas dimensões: a dimensão do espírito comunicante e a sua própria dimensão individual. Falta-lhe a dimensão social, sem a qual não há possibilidade de confronto de suas percepções e captações com a realidade tridimensional do mundo. Mas além disso falta-lhe a dimensão cultural das relações doutrinárias, que lhe abriria as perspectivas do inteligível, uma estrutura de planos e superplanos do entendimento superior e global das situações existenciais. Quer dizer: a sua solidão voluntária o reduz a uma situação existencial única, desligada das variadas situações em que se desenvolve o processo cultural espírita. Alheio à variedade crescente desse processo, ele cai numa posição doméstica, sem os dados necessários à orientação das suas funções mediúnicas e à verificação da legitimidade de suas captações. Nessa posição está exposto ao envolvimento das entidades mistificadoras, que desviarão facilmente as suas energias mediúnicas para o campo das confusões doutrinárias e portanto do aviltamento da doutrina. Se a nossa realidade existencial no mundo se fecha apenas nas três dimensões, a realidade espiritual, pelo contrário, se abre nas múltiplas dimensões das percepções extra-sensoriais, indispensáveis ao conhecimento total da realidade em que vivemos, bem como das relações estruturais do sensível com o inteligível. O médium solitário torna-se vulnerável à fascinação e à subjugação de entidades interessadas em fazer o conhecimento espiritual retroceder às condições do passado monástico e teológico que o Espiritismo rompeu para iniciar uma nova era da cultura terrena.
As relações sociais no Espiritismo, em campo aberto, têm por finalidade o apoio recíproco de médiuns, estudiosos e pesquisadores dos fenômenos mediúnicos, para troca
de idéias e de experiências, de maneira a facultar o desenvolvimento de uma cultura espiritual desligada das superstições do passado obscurantista, em que o isolamento orgulhoso das Igrejas em relação ao avanço científico separou a cultura religiosa da cultura geral. A condição de isolamento do médium, impedindo e frustrando o processo necessário das suas relações mediúnicas, impede a abertura da sua mente para as concepções mais amplas da atualidade cultural. Em poucas palavras: o médium egoísta e seu orientador espiritual semelhante a ele se engolfam em suas próprias lucubrações desprovidas de validade social e perturbam a evolução do processo espírita. Ao mesmo tempo, o apego às suas produções mediúnicas, por ele mesmo consideradas como de grande valor, o afasta cada vez mais do meio social espírita e conseqüentemente do meio cultural em que deve desenvolver-se. Nas relações com as instituições espíritas o médium encontra também uma barreira que geralmente o decepciona, fazendo-o retroceder ao seu isolamento. É o círculo vicioso em que caímos no movimento espírita brasileiro, infelizmente em conseqüência da nossa própria formação religiosa e da nossa falta generalizada de conhecimentos filosóficos, que deu ênfase excessiva, entre nós, ao aspecto religioso do Espiritismo e às tendências
místicas e mágicas do nosso povo. O apelo de Kardec à razão não despertou as camadas da população que se voltaram para a doutrina, e nem mesmo à absoluta maioria dos homens de cultura que se revelaram dominados por essa herança ambivalente, ao mesmo tempo mística e positivista, nos últimos tempos sobrecarregadas de influências positivistas e materialistas. O Prof. Cruz Costa observou que a influência do chamado espírito prático português dominam nossas atividades culturais.
Esse complexo de fatores (ressalvada a ambivalência acima referida) deu ao nosso movimento espírita uma condição conflitiva, que aumenta a confusão no tocante à compreensão da doutrina. O resultado é o aparecimento de mestres doutrinários imbuídos de pretensões revisionistas, inventores de novas práticas e criadores de princípios estranhos à natureza do Espiritismo. Os adeptos sempre aparecem em nossa paisagem cultural anêmica mas pretensiosa, incentivando o aparecimento de novos missionários que se apresentam -
com uma confiança alarmante em suas escassas forças proclamando-se reencarnações de grandes figuras históricas e afirmando-se incumbidos de levar o Brasil à liderança espiritual do mundo. A ingenuidade dos crentes, que não são apenas criaturas incultas mas também dotadas de cultura universitária (ou pelo menos graduadas), equivale à audácia dos líderes estranhamente convencidos de sua própria grandeza espiritual. Diante dessa escatologia quixotesca, as relações mediúnicas se confinam em escolas divergentes, pulverizando-se nos divisionismos irreconciliáveis. Médiuns de uma escola não aceitam os princípios de outras, de maneira que as relações se tornam inviáveis. Contra essa situação sem perspectivas, lutam os grupos que defendem os fundamentos legítimos da doutrina, à espera de melhores dias.

MEDIUNIDADE por J. Herculano Pires

3 comentários:

Valéria disse...

Interessante a análise de Herculano Pires. Quem a lê não consegue imaginar que foi escrita há mais de 30 anos, tão atual é a situação descrita.
O médium solitário, que se isola em seu mundo, com suas comunicações que ele se apressa em divulgar sem submeter à análise de um companheiro desinteressado, representam um perigo à causa espírita e à doutrina. E ao próprio médium.
A casa espírita solitária, isolada, que não promove o intercâmbio de expositores e trabalhadores, que não promove o estudo sistemático de Kardec, que evita participar de entidades federativas, ou mesmo evita que seus médiuns participem de seminários, cursos e congressos fora de seu ambiente, é triste de se ver. Médiuns despreparados, palestras repetitivas, dirigentes com medo de perguntas feitas por iniciantes com sede de saber, arrogância dos dirigentes.
Desequilíbrio premente de dirigentes e mesmo de grupos inteiros de trabalho na obsessão, apenas pela ignorancia daqueles que as administram.

Desculpem, mas hoje estou críica.

Francisco Amado disse...

Isto tudo por falta de uma dinâmica nas sociedades espíritas.
Palestras mais parecidas com uma missa do que com esclarecimentos.
Nem um incentivo ao estudo serio e continuado, visto que a maioria dos que chagam a casa espirita vem de religiões onde é só um ouvinte passivo e segue nesta linha.

ceu disse...

Achei interessante esse artigo pois passo por esse pequeno desafio ja frequentei uma casa fiz tratamento de 6 meses pois os dirigentes da casa pediram para eu ter manutençao ,eles nao tinham outra forma de ajuda.fiquei ia toda a semana e me sentia leve e até feliz senti que estava faltando algo,mas continuei passado algum tempo cessei o tratamento e iniciei um curso do evangelho ,mas me deparei com algo que me deixou impressionada.Nesse curso havia semi-analfabetos ignorantes mesmos pobrezinhos se sentiam para traz pois um dirigente passou umas 10 aulas falando de filosofia me senti na universidade,eles nada entendia e se entendiam da forma erronia sou ser humano e avesso a instituiçoes que eletizam conhecimentos ja que Jesus nos ensinou o amor isso é amor e me desculpem nao estou jugando é um fato.Eu sai do grupo de estudos passados meses de angustia pois fui la com intuito de ser auxiliada.Eu mais uma vez decepcionada fiquei numa entrevisat que nao posso entrar em detalhes alias em toda ouvi vc é medium mesmo mas vc pode ter auxlio sim mas nao hoje espere.Pergunto a vcs amigos medium espera?ja sofri muito e tive que me entender para nao sofrer,hoje muito mais tranquila mas procurando um grupo para me encaixar o que acontece nos centros?eles tem medo de quê?sou calma e sempre me mostrei assim minhas experiencias la dentro foram gratificantes para mim,mas é assim que tem de ser para mim?e para os outros hoje auxilio quem esta a minha volta com os ensinamentos do Mestre e nada mais que esta fora do meu alcance porque sou consciente tenho limitaçoes e sigo apenas intruçoes dos amigos espirituais ja que aqui entre nós pobres mortais ninguém quer obrigado pela atençao
somente uma observaçao :continuo acreditando em nós pois somos sim capazes de ensinar e aprender