sábado, janeiro 17, 2009

Manifesto Ortodoxo (1a release)

Este texto, disponibilizado por nosso companheiro Rodrigo Watzl não assume caráter definitivo, mas com certeza fornece um excelente norte para reflexão, aprofundamento e elaboração de um manifesto mais completo, portanto opiniões são extremamente bem vindas quer aqui ou na comunidade "Espiritismo Ortodoxo" do Orkut.




MANIFESTO ORTODOXO

O presente manifesto é o resultado da experiência de muitos anos de vários colegas dentro do movimento espírita brasileiro e da percepção comum dos inúmeros problemas que o assolam, sem que a grande maioria dos espíritas disso se aperceba.

É público e notório: as casas espíritas brasileiras (não todas), embora mantenham em suas dependências “cursos básicos”, os quais versam sobre as obras básicas organizadas por Kardec, não dispõem de espíritas suficientemente esclarecidos e versados nas obras cujo conteúdo pretendem transmitir. Isso quando, de fato, há tais cursos básicos. Além disso, vêem-se as mais absurdas distorções propagadas por encarnados a respeito dos ensinos dos espíritos superiores.

De tal forma que não seria exagero dizer que, hoje, vêm-se defensores de “emmanuelismos”, “andre-luisismos”, “divaldismos”, “chiquismos”, “roustanguismos”, “ramatismos” e todo tipo de “ismos” e seus adeptos e responsáveis diretos. Tudo, menos defensores do espiritismo.

Os que se insurgem contra tal estado de coisas, e que ousam pôr em xeque a “autoridade inquestionável dos mentores espirituais e dos médiuns que os psicografaram” logo recebem a pecha de “obsedados”. Isso, quando não são sumariamente expulsos das instituições que frequentam.

O Centro Espírita (que, na verdade, deveria ser chamado de “Sociedade Espírita”) foi, assim, transformado em uma verdadeira igreja. E a consequência é a igrejificação do movimento espírita brasileiro, sob a égide desses “ismos”, que, seguramente, nenhum espírito bem intencionado pretendeu estabelecer.

Quem quer que se digne de observar o movimento espírita brasileiro por tempo suficientemente longo vai perceber, portanto, que muitas casas ditas espíritas, de espíritas têm apenas o letreiro.

É contra este estado de coisas que nos insurgimos. E o presente manifesto tem por objetivo divulgar a ortodoxia e esclarecer sua proposta. A única ferramenta que, assim entendemos, será capaz de retomar o espiritismo tal como ele jamais deveria ter deixado de ser.


1. O que é a Ortodoxia.

“Ortodoxia”, segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa significa:
* substantivo feminino; 1. caráter ou condição de ortodoxo; 1.1 conformidade absoluta com um certo padrão, norma ou dogma; 2. Derivação: por extensão de sentido. Interpretação, doutrina ou sistema teológico implantado como único e verdadeiro pela Igreja; dogmatismo religioso. Ex.: o. católica; 3. Uso: informal, pejorativo: intolerância com relação ao que é novo e diferente.

Filiamo-nos às acepções 1 e 1.1., qual seja, “conformidade absoluta com um certo padrão, norma ou dogma”, retirando desta a palavra “dogma”, e desconsiderando todas as demais significações. A razão é simples: por imperativos de coerência e de honestidade intelectuais, algo somente pode fazer parte de um sistema se se adequa a ele. Assim, por exemplo, quem quer que defenda a propriedade privada dos meios de produção não pode ser considerado marxista, nem seu pensamento enquanto tal. Pela mesma via, ninguém pode se considerar espírita, nem considerar seu pensamento enquanto tal, se defende, por exemplo, uma “encarnação fluídica” de Jesus. Um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar. O que nos leva ao primeiro sub-tópico.


1.1. Ortodoxia enquanto coerência doutrinária.

Desta forma, o sentido que damos à ortodoxia é o da coerência doutrinária. Uma observação atenta das obras “espíritas” vendidas em muitos centros demonstra bem a dimensão do problema. Vêem-se espíritas falando, com ar sério e circunspecto, a respeito de teses mediúnicas, como, por exemplo, “planeta chupão”.

Em função dos muitos anos de observação do movimento espírita, podemos dizer que, geralmente, qualquer comunicação, desde que seja mediúnica e respaldada por nomes respeitados (de encarnados ou não), é prontamente aceita. Recebe um “selo de qualidade espírita”. Por outro lado, esses mesmos espíritas, com a mesma circunspecta autoridade, proferem uma sentença sem apelação: “ ‘espiritismo’ é ciência, filosofia e religião”. De se perguntar o sentido que emprestam aos termos ciência e filosofia. E, no entanto, o movimento espírita ainda se dá o direito de se magoar com o fato de a quase totalidade dos cientistas e filósofos verem no “espiritismo” apenas pseudociência e pseudofilosofia, respectivamente; temas indignos de sua atenção.

A tudo isto denominamos falta de coerência doutrinária, em que pese não implicar nenhum julgamento do caráter pessoal de quem assim pensa.

Portanto, uma vez que a ortodoxia espírita é simplesmente o outro nome que se dá à coerência doutrinária espírita, e que essa mesma doutrina propugna pelos avanços do conhecimento, nada mais natural do que ser abordado agora o CUEE, isto é, a metodologia legada ao espiritismo por Kardec.


1.2. O Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos – CUEE e a ortodoxia.

CUEE é a abreviação de Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos. Trata-se simplesmente do seguinte: a aplicação da metodologia desenvolvida por Kardec quando da elaboração das obras básicas, metodologia esta que consiste na apreciação de diversas mensagens mediúnicas transmitidas por diversos médiuns desconhecidos uns dos outros e separados geograficamente, observados os critérios previstos em “O Livro dos Médiuns” quanto à apreciação da qualidade das mensagens, e do caráter dos médiuns utilizados para transmiti-las, além, obviamente, dos espíritos que se comunicam (e, conforme os critérios do OLM, a probabilidade de serem quem dizem ser), bem como observada a estatística de concordância quanto ao conteúdo dessas mesmas mensagens entre si, sejam elas obtidas espontaneamente ou não.

Paralelamente ao CUEE: a utilização do método científico, para a aferição da possibilidade de a mensagem ser de uma inteligência alheia a do médium, bem como a análise do próprio conteúdo, caso verse sobre algum tema científico; e a utilização do “crivo da razão” (que é parte da metodologia), tão mencionado por Kardec, e que consiste em aferir a razoabilidade dos ditados mediúnicos, minimizada a possibilidade de puro e simples animismo do médium.

São tais os instrumentos que possibilitam evitar erros crassos, como “planetas chupões”, “encarnações fluídicas”, vida em Marte, apesar do apreço ligado ao médium e ao espírito supostamente comunicante.

O que implica acabar, de uma vez por todas, com a idolatria mediúnica e o igrejismo vigentes no movimento espírita brasileiro nos dias presentes. O que nos leva ao tópico seguinte.


1.3. O método científico e a ortodoxia.

A ciência é feita a partir de fatos. Em linhas gerais, o método científico consiste no seguinte: observa-se um fato. Observado esse fato, elabora-se uma hipótese para explicá-lo. Em seguida, elaborada a hipótese, formula-se um teste para aferir se ela, hipótese, é falseável. De tal forma que várias hipóteses podem ser formuladas, inclusive posteriormente, para explicar o mesmo fenômeno e, ainda assim, serem falseáveis.

O que significa dizer que as hipóteses falseáveis não são explicações definitivas.

Em outras palavras, a ciência é um tipo de conhecimento autocorretivo. São sofismas dos mais graves dizer, como comumente se diz no movimento espírita brasileiro, que “a ciência ainda não provou a existência do espírito ou de Deus”, ou que “nossa ciência ainda está muito atrasada para compreender certas coisas”, ou, ainda, que “a ciência diz uma coisa hoje, amanhã diz outra”, como forma de rebater as objeções que são feitas a muitas obras (a despeito do médium e do espírito) de conteúdo, no mínimo, duvidoso.

A respeito destes sofismas, que são os mais comuns no MEB, cumpre dizer o seguinte:

- “A ciência ainda não provou a existência do espírito ou de Deus”:

Ao contrário do que erroneamente se crê no MEB, não compete à ciência “provar a existência” de Deus ou dos espíritos. Deus é absolutamente irrelevante para a ciência, uma vez que esta não dispõe mesmo de instrumentos metodológicos para tanto.

Quanto a provar a existência do espírito, é preciso esclarecer o espírito nada mais é do que uma hipótese para os fenômenos que o espiritismo estuda. A que consideramos, sob o aspecto científico, a mais provável. Além disso, ainda que se admitisse esse “argumento”, ele cai por terra pela seguinte razão: geralmente ele é usado em combinação com outras hipóteses tidas como não provadas. É comum se dizer: “você diz que ‘x’ não foi provado, mas ‘y’ também não foi”. Como se uma proposição, e o fato de não ter sido falseada, tivesse qualquer relação com a outra, igualmente não falseada.

O que significa dizer o seguinte: não se pode considerar uma proposição como não provada, utilizando outra que igualmente não o foi; nem provar algo com “o algo” a ser provado.

- “nossa ciência ainda está muito atrasada para compreender certas coisas”:

Outro sofisma, porque o propósito da ciência é, justamente, entender. Usa-se esta assertiva alternativamente sofisma descrito acima e com a mesma finalidade.

- “a ciência diz uma coisa hoje, amanhã diz outra”:

Evidentemente, uma vez que a ciência, ainda que envolva elementos subjetivos de análise, não é religião. Como anteriormente mencionado, a ciência é um tipo de conhecimento autocorretivo em que as hipóteses vão se sucedendo na eterna busca pela verdade. O “argumento” acima é a demonstração cabal do absoluto desconhecimento a respeito da ciência e de seu método.

Assim sendo, o método científico, além do CUEE, apesar de serem indispensáveis para o espiritismo, são abandonados, preferindo-se, em seu lugar, obras mediúnicas que, as mais das vezes, não atendem os mínimos rigores filosóficos ou científicos. Além de não terem sido respaldados pelo CUEE.

O que nos leva a indagar a respeito do valor dessas obras no subitem seguinte.


1.4. O valor das demais obras posteriores à codificação.

A filosofia e a ciência têm seus métodos. O que quer que não siga estes métodos pode ser considerado qualquer coisa, menos ciência ou filosofia. Com o espiritismo não pode ser diferente. Mais uma vez, evoca-se o princípio da coerência como suporte. Assim, qualquer cientista que resolva dizer que consegue, por exemplo, criar uma usina de moto-contínuo, vai ser considerado, no mínimo, folclórico se não embasar sua afirmação em resultados concretos obtidos com um estudo sério, conforme a metodologia científica e passível de ser testado em qualquer laboratório do mundo, a qualquer momento, e nas mesmas condições. O mesmo ocorre com o espiritismo: o que quer que tenha sido escrito após as obras básicas, se não tiver sido objeto de estudo segundo as metodologias espírita e científica, não passa de uma opinião pessoal de tal ou qual espírito e/ou médium, por mais respeitáveis que possam ser.

Não se pretende atribuir valor nulo a tais opiniões. Longe disso. Pretende-se, isso sim, conferir-lhe seu justo valor, qual seja, o de uma mera opinião pessoal, seja ela de Chico Xavier, Emmanuel, André Luís, Bezerra de Menezes, Divaldo Franco, entre outros, restando, assim, rejeitada a falácia do argumento “ad verecundiam”.

Tal falácia é um dos instrumentos da igrejificação do movimento. Igrejificação esta que buscamos reverter.


2. A advertência de Kardec como suporte para a ortodoxia.

Segue um excerto de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, introdução - II - Autoridade da Doutrina Espírita. Controle universal do ensino dos Espíritos:

“(...) Não será à opinião de um homem que se aliarão os outros, mas à voz unânime dos Espíritos; não será um homem, nem nós, nem qualquer outro que fundará a ortodoxia espírita; tampouco será um Espírito que se venha impor a quem quer que seja: será a universalidade dos Espíritos que se comunicam em toda a Terra, por ordem de Deus. Esse o caráter essencial da Doutrina Espírita; essa a sua força, a sua autoridade. Quis Deus que a sua lei assentasse em base inamovível e por isso não lhe deu por fundamento a cabeça frágil de um só.

Diante de tão poderoso areópago, onde não se conhecem corrilhos, nem rivalidades ciosas, nem seitas, nem nações, é que virão quebrar-se todas as oposições, todas as ambições, todas as pretensões à supremacia individual; é que nos quebraríamos nós mesmos, se quiséssemos substituir os seus decretos soberanos pelas nossas próprias ideias. Só Ele decidirá todas as questões litigiosas, imporá silêncio às dissidências e dará razão a quem a tenha. Diante desse imponente acordo de todas as vozes do Céu, que pode a opinião de um homem ou de um Espírito? Menos do que a gota d’água que se perde no oceano, menos do que a voz da criança que a tempestade abafa.

A opinião universal, eis o juiz supremo, o que se pronuncia em última instância. Formam-na todas as opiniões individuais. Se uma destas é verdadeira, apenas tem na balança o seu peso relativo. Se é falsa, não pode prevalecer sobre todas as demais. Nesse imenso concurso, as individualidades se apagam, o que constitui novo insucesso para o orgulho humano. (...)”

Kardec, expressamente, nos exorta à coerência. Explica que o ensino deve ser concorde. Que as opiniões dos espíritos, sem a chancela da concordância universal (que é a da maioria, e considerados os critérios de O Livro dos Médiuns) nada mais são do que opiniões pessoais.

Kardec nos deixa como critério a concordância universal. A ortodoxia, isto é, a coerência doutrinária, busca a retomada da metodologia inicial, a fim de alcançar esta concordância, ao arrepio de opiniões individuais.

Tais são nossos objetivos. E nas instruções de Kardec encontramos nosso suporte.


3. Refutações de não ortodoxos à ortodoxia, ou opiniões mais comuns de quem desconhece ou tem restrições pessoais (muitas vezes infundadas) ao assunto.

Em nossos anos de observação do MEB, pudemos perceber muita repulsa à proposta ortodoxa. Uma repulsa baseada em entendimento errôneo. Tais são os exemplos mais comuns e que serão discutidos nos tópicos subsequentes e rebatidos no item 4 (“Tréplica”).

Mas, antes, mais algumas considerações.

Os detratores da ortodoxia (e dos ortodoxos), em que pese a boa-fé demonstrada por muitos, geralmente encontram seu calcanhar de Aquiles em duas características humanas muito comuns: a teimosia e a falta de bom senso.

As dificuldades humanas, de fato, são inumeráveis. Todos temos crenças e opiniões e as defendemos da melhor maneira que conseguimos. E, no que concerne à ortodoxia, as refutações acima são defendidas muitas vezes de maneira teimosa e ao arrepio do bom senso.

Com efeito, as refutações da ortodoxia nada mais são do que prova de que ou desconhecem o seu significado, assim como o do movimento ortodoxo, ou, então, apesar das muitas explicações já apresentadas, insistem em sua visão errônea e teimosa. E a teimosia sempre nos pareceu um dos piores exemplos de falta de bom senso.

Por esta razão, não seria exagero ou tolo intelectualismo relembrar a velha lição Cartesiana, exposta com fina ironia em “O Discurso sobre o Método”, a respeito do bom senso e dos que o dizem possuir. E isso porque muito já foi exposto por nós a respeito da ortodoxia, nem sempre com estas mesmas palavras, porém com o mesmo sentido. De tal forma que, apesar de tudo, exortamos os opositores a abandonar sua teimosia e a parar com a írrita insistência em emprestar à ortodoxia significados que nunca lhe demos e que, por esta razão, nunca defendemos.

Passemos, então, às refutações.


3.1. Ortodoxia seria fundamentalismo e intolerância.

Haveria uma relação de identidade entre ortodoxia e “fundamentalismo e intolerância”. Neste caso, a palavra traria em si o germe de algumas das piores e mais comumente manifestadas características humanas.

O que nos leva ao próximo subitem.


3.2. “Ortodoxia” é uma palavra perigosa.

Costumamos ser acusados de disseminar uma palavra perigosa, que somente serviria para provocar animosidades e sectarismos entre os espíritas. Uma palavra que carregaria a maldição de defender a intolerância e a separação ente as pessoas. Além do mais vil e abjeto fundamentalismo.

O que nos leva ao próximo subitem.


3.3. Ortodoxia seria uma seita sectária dentro do MEB e contribuiria com um ideal sectário.

Em razão do suposto fundamentalismo que muitos entendem ser imanente à ortodoxia, o movimento ortodoxo seria uma seita sectária que pretenderia separar-se do movimento espírita, contribuindo com o ideal sectário.

O que nos leva ao próximo subitem.


3.4. Ortodoxia seria um contrassenso em relação a si mesma

Como o espiritismo é uma doutrina fraternal e de união entre os seres humanos, o sectarismo imanente à ortodoxia seria um contrassenso, eis que somente proporcionaria a separação entre os seres humanos.


3.5. Ortodoxia seria desabonada por Kardec.

Não haveria o aval de Kardec, em razão destas poucas palavras: “(...) Não será à opinião de um homem que se aliarão os outros, mas à voz unânime dos Espíritos; não será um homem, nem nós, nem qualquer outro que fundará a ortodoxia espírita (...)”


4. Tréplica.

Nesta parte do Manifesto organizamos nossas refutações às críticas formuladas, mostrando a falta de fundamentação e o desconhecimento daqueles que criticam nossa proposta, desaprovando-as. Esperamos, com estas refutações, torná-la mais clara, a fim de evitar-se desgaste desnecessário, este sim, perigoso.

4.1. Ortodoxia e o respeito à opinião.

Fundamentalismo e intolerância pressupõem o desrespeito à liberdade de crença e de pensamento. E a exposição do item 1, subitem 1.1, deste manifesto, no tocante à definição de ortodoxia, seria suficiente para refutar uma crítica tão mal fundamentada.

Mas, demoremo-nos um pouco mais.

Em palavras mais simples, a ortodoxia é um instrumento que permite categorizar as . Possibilita uma triagem daquilo que é e do que não é doutrina dos espíritos, sem se ater à análise qualitativa das ideias submetidas à ortodoxia. O que significa dizer que a proposta ortodoxa não é depreciar ou desrespeitar o que quer que seja, nem seus adeptos, mas sim definir se tal ideia é ou não doutrinária. Apenas isso.

Apesar de defendermos a tese de que o espiritismo não é uma religião, podemos citar o exemplo de católicos, protestantes, budistas, taoístas, etc., que procedem da mesma maneira em relação a suas ideias e nem por isso recebem a pecha de intolerantes e fundamentalistas.

Salvo o caso de se pretender aplicar dois pesos e duas medidas, onde, então, o fundamentalismo e a intolerância?


4.2. Perigo?

Há perigo na terminologia apenas para quem ignora o significado que lhe damos, ou para quem tem má vontade e teimosia em assim não entender. E talvez nada mais precise ser dito.


4.3. Ortodoxia enquanto postura pessoal não sectária e não tendente ao sectarismo.

De tudo quanto se expôs a respeito da ortodoxia, torna-se difícil levar a sério a crítica de que compomos uma seita sectária, fundamentalista e intolerante que defende um ideal tal. Isto porque o que pretendemos é a mera retomada da coerência em relação ao que o espiritismo um dia foi.

Considerada seriamente, então a mesma oposição poderia ser feita à ciência, à filosofia, bem como às religiões, eis que simplesmente não acolhem em seu seio ideias que não se submetem aos seus critérios metodológicos.

Parece difícil de compreender, mas, na verdade, é muito simples: o objetivo da ortodoxia é o de separar as ideias, não as pessoas.


4.4. Contrassenso?

Considerando o fato de que ortodoxia é apenas o outro nome que se dá à coerência doutrinária, respeitando sempre a liberdade de opinião e de crença de quem quer que seja (até porque, o fato de alguém não ser espírita não significa nada além do fato em si mesmo); considerando, ainda, que uma ideia qualquer não é má apenas pelo fato de não ser espírita (o que significa dizer que uma proposição “x” não precisa ser espírita para ser “boa”, ou “sensata”); considerando, por fim, que ser coerente com a doutrina implica perseguir a realização plena da própria natureza perfectível, é de se perguntar: onde o contrassenso?


4.5. O aval de Kardec para a ortodoxia.

O aval de Kardec está no próprio excerto copiado no item 2.

Com efeito, o que ele pretende dizer é que o movimento e a doutrina espírita não se deve apoiar apenas nas conclusões de um ou de alguns, encarnados ou não. Deve haver a concordância universal, respeitados os critérios de análise de mensagens mediúnicas definidos no OLM. E o que defendemos tem sua clareza solar neste míni excerto: “(...) Diante de tão poderoso areópago, onde não se conhecem corrilhos, nem rivalidades ciosas, nem seitas, nem nações, é que virão quebrar-se todas as oposições, todas as ambições, todas as pretensões à supremacia individual (...)”.
O que significa dizer que todas as obras que tenham a pretensão de ser complementos doutrinários devem ser submetidas à esta confirmação por parte dos demais espíritos que porventura se comuniquem.


5. Conclusão.

A ortodoxia espírita nada mais é do que a coerência doutrinária. Seus adeptos apenas buscam essa coerência por meio da análise desapaixonada de quaisquer obras mediúnicas.

Não há, nem pode haver, qualquer laivo de desrespeito a quem quer que seja pelo único e simples fato de se proceder desta maneira, apesar de algumas conclusões de alguns ortodoxos poderem provocar desconforto em alguns outros espíritas. O objetivo, entretanto, jamais será o desrespeito. Se fosse, feriria de morte a própria ortodoxia.

O que se faz necessário, em regime de urgência, sejamos ou não espíritas, ortodoxos ou não, é diálogo, entendimento, fraternidade. O verdadeiro ortodoxo busca tudo isso. O verdadeiro espírita busca tudo isso. O verdadeiro homem de bem busca tudo isso.

Não pretendemos, nem nunca poderíamos pretender qualquer separação, sectarismo ou coisa que o valha. Uma das características do ser humano inteligente é aprender com os erros do passado, sejam ou não seus erros. E a história é uma fonte inesgotável das tolices humanas e das conseqüências nefandas que os separatismos proporcionaram.

Repetimos: buscamos apenas a coerência doutrinária. A separação das idéias, não das pessoas que as defendem.

9 comentários:

WaNteD_ disse...

Entendo todas as colocações, so penso que nao é necessário a denominação ortodoxo, ou qualquer outra para a tentativa muito justa de voces de tentarem por tudo o que nos vem sendo trazido da parte dos romances mediunicos e demais publicacoes feitas atraves de espiritos, ao crivo da razão.

Acredito, ou acho melhor dizendo que seria necessário pegar o material mais debatido, que nao esta tao explicito na Codificação e submete-lo ao CUEE ao a razão, me explico, devemos efetuar perguntas e submete-las em variados centros espiritas, para adquirindo estar respostas, fazermos um conceito, nao com o intuito de verdade inquestionavel, mas de uma proximidade com a verdade maior, vejo que nesta circunstancia uma reuniao de varios profundos conhecedores da DE poderiam juntar-se e promover com todos as informações um conceito destes temas novos, por ex: colonias.
Faz umas duas semanas que tive essa idéia, quem sabe seja um caminho, nao para ortodoxos, mas para espiritas que querem através do metodo deixado por Kardec estabelecer parametros para as informações trazidas na contemporaneidade pelos nossos irmaos desencarnados.
=) Abraços
att
Michel Kleber Michels, Chapecó/SC

Francisco Amado disse...

Acredito que o que falta na doutrina é uma divulgação massiva da coisa certa.

De modo a não deixar brechas para as interpretações vagas.

A doutrina esta muito escondida e somente umas poucas pessoas tem o conhecimento verdadeiro do que é espiritismo, a esmagadora maioria formularam uma ideia pessoal da doutrina, um estereótipo mental a que se apegaram.

Pois, faltou estudo e divulgação d coisa certa.

Marcelo - Bragança Paulista disse...

Concordo com a opinião de Michel quando afirma que não seria necessário o termo "ortodoxo", mas, como dizem os espíritos no LE, podemos criar o conceito que quisermos, contanto que nos entendamos entre nós.

Quanto ao CUEE, penso que primeiro seria necessário que o adepto tivesse um conhecimento de todas as obras de Kardec e das relações entre elas. Desenvolver a ciência espírita pressupõe conhecer a fundo as suas bases, e digo isto principalmente quanto a Revista Espírita, nossa maior desconhecida. Sem conhecimento prévio das questões filosóficas cruciais, sem vontade sincera de conhecer e se aprofundar, os espíritos bem intencionados no desenvolvimento da ciência espírita não se manifestariam.

Nesta primeira visita ao blog, gostaria de parabenizar o grupo e estimulá-los a continuarem os debates levantados.

Abs!

Rogerio Cisi disse...

O trabalho expresso neste blog é muito importante. Mas cabe a todos observar que em Espiritismo tudo é hipótese, teoria, mesmo os pontos de vista adotados pelos autores do blog.

Marco Aurélio Leite da Silva disse...

A Doutrina mesmo estipula que se dá a atualização automática do corpo doutrinário sempre que a Ciência comprovar algo que contraste com o que consta da codificação... Ora, deixar à conta da Ciência a atualização da Doutrina, sendo que tantas vezes as provas científicas caem após novas descobertas, e ignorar o que nos dizem Espíritos consoante sua visão e sua experiência, é o mesmo que o padre prestar contas ao pastor e ignorar os párocos... Sim, dê-se valor relativo aos ensinamentos posteriores, passando-se sempre pelo crivo da razão e dos princípios gerais que compõem, por assim dizer, os valores pétreos da Doutrina... Todavia, pretender que os ensinos posteriores sejam nada mais que artigos de qualquer pasquim, aí é demais... Até mesmo Herculano Pires considerava Delanne obra subsidiária à Doutrina...

Dr. Fernando Salvino - Parapsicólogo Clínico ~ Parapsychologist disse...

Interessante este texto, vou examina-lo com mais profundidade. Abraços. Dr. Fernando Salvino, Parapsicólogo e coord. NIAC - Nucleo de Investigações Avançadas da Consciência, Fpolis/SC.

C.E. Humildade, Amor e Luz disse...

Cesar. Concordo com você e também com o comentário de nosso amigo Marcelo de Bragança Paulista. Obviamente o estudioso da Doutrina Espírita tem por fundamento teórico fundamental a codificação kardequiana. Ninguém pode discutir verdadeiramente espiritismo sem conhecer profundamente as obras básicas. Entretanto, é sabido que grande parte dos adeptos do Espiritismo lêem pouco essas obras, talvez no máximo o Livro dos Espíritos e o Evangelho Segundo o Espiritismo. Isso porque a leitura das obras é de difícil compreensão para quem está iniciando na Doutrina. Então, a leitura mais atrativa são evidentemente os romances espíritas que, muito embora provenientes de espíritos, são a idéia consagrada de apenas um deles, logo, não submetidas ao CUEE antes de sua publicação. Assim, concluindo, penso que cabe a nós todos fazermos a análise desses escritos e deixarmos em aberto conclusões mais radicais. Há que se tirar o sumo de toda a escritura, lembrando que o que importa, na verdade, é o ensino fundamental de nosso Mestre Jesus. "Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo." Fiquemos com Deus.

Cecília Stabile disse...

Muito bom achar este blog! Hoje tentei mais uma vez ir a um grande centro espírita na minha cidade, e para minha surpresa além das paredes forradas de trechos de Emmanuel, teve um cântico antes da palestra... Me sinto cada dia mais perdida dentro dessa nova "igreja" da FEB, que segue à risca os livros de Chico Xavier, cada dia perdendo mais da simplicidade da doutrina de Kardec.
Isso fora o filme "Nosso Lar", ficção científica + chororô, que faz parecer que todos os espíritas acreditam que no "céu" se anda de ônibus, usa chat pela internet...

Marcelo Pereira disse...

Marco Aurélio, a atualização da doutrina é sempre bem vinda, mas só depois de aprovada pela CUEE. O que é "pasquim" são as revelações que entram em contradição com o que diz a codificação kardequiana.

Desde que não negue o que é dito na codificação, as revelações dos espíritos serão aceitas.

Infelizmente não é o que acontece com a maior parte das publicações das doutrinas, onde mensagens de "paz, amor e esperança" são tratados como se fossem "ciência espírita", transformando simples médiuns em gurus.